- CUIABÁ
- QUARTA-FEIRA, 14 , JANEIRO 2026


Uma investigação conduzida pelo Greenpeace Brasil acusa a JBS, maior empresa de proteína animal do mundo, de ter recebido indiretamente gado criado de forma ilegal dentro da Terra Indígena Pequizal do Naruvôtu, localizada no estado de Mato Grosso. Segundo o relatório da ONG, o esquema teria abastecido frigoríficos da companhia em Barra do Garças e Água Boa, ambos autorizados a exportar para mercados internacionais de alto valor — como União Europeia, Reino Unido, Canadá e Hong Kong — além de atender ao mercado interno brasileiro.
📉 Esquema de “lavagem de gado”
A denúncia aponta para a prática conhecida como “lavagem de gado”, em que animais criados em áreas embargadas ou desmatadas ilegalmente são transferidos para propriedades regulares, sem restrições ambientais. Posteriormente, esses animais são vendidos a frigoríficos, ocultando sua origem ilícita nos registros oficiais e contaminando toda a cadeia produtiva.
Entre 2018 e 2025, um fazendeiro proprietário de quatro áreas que fazem fronteira ou se sobrepõem à Terra Indígena Pequizal teria transferido ao menos 1.238 bois da Fazenda Três Coqueiros II — multada em R$ 1,5 milhão e embargada pelo Ibama em 2023 — para a vizinha Fazenda Itapirana, livre de sanções. A menos de dois quilômetros de distância, a Itapirana teria se tornado peça-chave para “esquentar” o gado irregular, que foi então enviado aos frigoríficos da JBS.
🌍 Impacto ambiental e falhas na rastreabilidade
A denúncia surge às vésperas da COP30, que será realizada em novembro no coração da Amazônia, e destaca falhas persistentes no monitoramento de fornecedores indiretos — considerado o elo mais vulnerável da cadeia da pecuária. Apesar dos compromissos assumidos pela JBS desde 2009 para eliminar o desmatamento de sua cadeia produtiva, a empresa ainda não rastreia integralmente esse segmento.
Mesmo após a homologação da Terra Indígena Pequizal em 2016 e a recente decisão do Supremo Tribunal Federal que reafirmou sua validade, atividades ilegais continuam sendo registradas na área. Para o Greenpeace, é urgente que governos e empresas adotem mecanismos de rastreabilidade completos e promovam uma regulação mais rígida dos setores pecuário e financeiro.
🌱 Crise climática e responsabilidade corporativa
A dimensão climática do problema também foi ressaltada. Em 2023, a agropecuária foi responsável por 74% das emissões de gases de efeito estufa no Brasil, segundo o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), com destaque para o metano liberado pelo rebanho bovino. Segundo a ONG, a manutenção dessas brechas acelera a crise climática e empurra a floresta amazônica para o ponto de não retorno.
📌 Resposta da JBS
Em nota oficial, a JBS afirmou que realizou uma auditoria interna sobre as compras mencionadas no relatório e concluiu que todas seguiram os critérios estabelecidos pela Política de Compra Responsável de Matéria-Prima, bem como os protocolos definidos pelo setor. A empresa declarou que o Greenpeace não conseguiu comprovar o trânsito do gado entre a Fazenda Três Coqueiros II e suas unidades industriais.
Ainda assim, como medida preventiva, a JBS bloqueou a Fazenda Itapirana e solicitou esclarecimentos ao produtor. A companhia destacou que monitora 100% de seus fornecedores diretos por meio de imagens de satélite de alta resolução e cruzamento de dados oficiais. Desde 2021, implementou a Plataforma Pecuária Transparente, baseada em tecnologia blockchain, que permite aos fornecedores verificarem a conformidade de seus próprios fornecedores. A empresa ressalta que não tem acesso às Guias de Trânsito Animal utilizadas na investigação da ONG.
As imagens registradas dentro da Terra Indígena Pequizal mostram de diferentes ângulos o limite entre área de pastagem e floresta da Fazenda Três Coqueiros. A estrada marca a divisa na parte inferior.

