- CUIABÁ
- QUARTA-FEIRA, 14 , JANEIRO 2026


Faltavam apenas dez minutos para o fim do plantão de domingo (26) quando a médica pediatra Érika Baldo foi chamada pelas enfermeiras da UPA de Várzea Grande, na região metropolitana de Cuiabá (MT), para atender uma mulher que havia chegado com o que parecia ser um bebê. Ao se aproximar, a médica percebeu que se tratava de um bebê reborn — um boneco hiper-realista feito para parecer um recém-nascido.
“Eu achei que fosse brincadeira. Fiquei chocada, sem saber o que dizer. Perguntei o que havia acontecido e ela respondeu que o bebê estava gripadinho e que o havia acabado de trocar porque tinha feito cocô. Disse que queria passar por consulta, mas não havia ficha aberta”, contou a médica.
Segundo Érika, a jovem aparentava ter entre 18 e 20 anos. Diante da situação, e temendo causar uma reação mais intensa, a pediatra optou por explicar que o boneco não poderia ser atendido, pois não possuía CPF nem cartão do SUS, documentos obrigatórios para o registro de pacientes.
“Expliquei que aquele tipo de caso deveria ser encaminhado para o CAPS, pois poderia se tratar de um surto. Quando dissemos que não seria possível o atendimento, ela ficou revoltada”, relatou.
A jovem estava acompanhando a mãe, que apresentava sintomas de gripe, e aproveitou a ida à unidade para solicitar atendimento também para o boneco.
“As enfermeiras ficaram sem saber o que dizer. Ela insistiu, perguntou se eu não poderia pelo menos dar uma olhadinha, mas expliquei novamente que não havia como abrir ficha de atendimento”, disse Érika.
A médica afirmou nunca ter enfrentado uma situação semelhante, embora já tenha atendido pacientes com transtornos psiquiátricos.
“Ela parecia realmente acreditar que o boneco era um bebê. Tinha bolsa de maternidade, fraldas, roupinhas e o segurava com todo cuidado. Acredito que fosse um caso de natureza psiquiátrica”, completou.
Em nota, a Superintendência das Unidades de Pronto Atendimento de Várzea Grande reforçou que o atendimento nas UPAs deve ser direcionado exclusivamente a pacientes que realmente necessitam de cuidados médicos, evitando prejuízos à assistência da população.
O que é um bebê reborn?
O termo reborn vem do inglês e significa “renascido”. Ele surgiu durante a Segunda Guerra Mundial, quando mulheres passaram a customizar bonecas antigas para que se parecessem com recém-nascidos.
Com o passar do tempo, os bebês reborn se popularizaram e ganharam aparência cada vez mais realista, com detalhes minuciosos como textura de pele, cílios, unhas e até cabelos humanos.
No Brasil, os bonecos ganharam destaque após encontros de “mães de bebês reborn” em diversas cidades, incluindo um evento realizado em abril deste ano no Parque Ibirapuera, em São Paulo.
O tema também chegou ao Congresso Nacional, com a proposta de um projeto de lei que prevê multa superior a R$ 30 mil para quem utilizar um bebê reborn a fim de obter atendimento preferencial, prioridade em filas, descontos ou outros benefícios destinados a crianças de colo e seus responsáveis.