- CUIABÁ
- SÁBADO, 28 , FEVEREIRO 2026
Allan Mesquita
Reportagem
A produtora rural Raquel Cattani, morta à facadas aos 26 anos, deixou um legado que vai muito além do sobrenome conhecido na política de Mato Grosso. Mais do que filha do deputado estadual Gilberto Cattani (PL), ela foi uma jovem empreendedora que transformou a própria história e a do assentamento Pontal do Marape, em Nova Mutum (241 km de Cuiabá) em exemplo de talento, coragem e amor pela vida no campo. Nesta quinta-feira (22), o nome de Raquel volta ao centro das atenções com o julgamento dos réus acusados de planejar e executar sua morte, os irmãos Romero Xavier Mengarde e Rodrigo Xavier Mengarde, ex-marido da vítima.
Raquel foi encontrada morta dentro de casa com mais de 30 facadas, no dia 19 de julho de 2024. O crime chocou o estado e interrompeu de forma brutal uma trajetória marcada por sonhos.
Apaixonada pela rotina sertaneja, Raquel fazia questão de mostrar nas redes sociais a simplicidade do dia a dia na fazenda. Entre vídeos andando a cavalo, cuidando do gado e registrando a ordenha, ela repetia que era ali, no campo, que encontrava felicidade. “Vivendo na simplicidade onde mora também a felicidade”, escreveu em uma das postagens. Recusou convites para morar na cidade e nunca abriu mão do sítio e dos animais, que considerava parte da família.


Foi desse amor com o campo que surgiu a Queijaria Cattani. Extremamente dedicada, Raquel se envolvia em todo o processo de produção, acompanhando cada detalhe, desde a ordenha até a finalização dos queijos, sempre com alto padrão de qualidade. A dedicação rendeu frutos em abril de 2024, quando, logo na primeira participação no 3º Mundial do Queijo do Brasil, em São Paulo, conquistou a medalha Superouro com o queijo Maringá e a medalha Ouro com o Nozinho temperado, superando mais de 2 mil produtos. O reconhecimento nacional marcou um novo momento em sua trajetória e fortaleceu os planos de levar os queijos artesanais para feiras e mercados de Cuiabá e de outras regiões.
Além de empreendedora premiada, Raquel era mãe de duas crianças, uma menina de 4 anos e um menino de 7, e sonhava em crescer sem se afastar da terra onde construiu sua história.
Mesmo diante da dor, o legado de Raquel segue vivo. Em setembro de 2024, o 1º Concurso do Queijo e Produtos Lácteos de Mato Grosso, realizado em Cuiabá, criou a categoria “Inovação Regional Raquel Cattani”, em homenagem à produtora. Em janeiro de 2025, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) também inaugurou o Espaço Raquel Cattani, na Procuradoria Especial da Mulher.
Um mês depois, a família reabriu a queijaria no Pontal do Marape, sete meses após o crime. “Seguimos com o coração apertado pela saudade, mas resolvemos retomar as atividades para que seu legado e sua paixão permaneçam vivos em cada produto”, disse a mãe, Sandra Cattani, à época.
Julgamento
O julgamento dos irmãos Romero Xavier Mengarde e Rodrigo Xavier Mengarde, está marcado para as 8 horas desta quinta, na Comarca de Nova Mutum. Segundo a investigação, Romero, ex-marido da vítima, não aceitava o fim do relacionamento, que durou cerca de dez anos, e teria oferecido R$ 4 mil ao irmão para cometer o crime. A acusação aponta que os dois combinaram previamente como seria a execução. Ela foi encontrada morta dentro de casa com mais de 30 facadas, em 2024.
O Ministério Público também destaca qualicadoras como feminicídio, emboscada, motivo torpe e homicídio mediante recompensa. Ainda segundo o processo, após o assassinato, Rodrigo furtou diversos pertences da vítima e fugiu na moto que ela utilizava.
Os acusados foram presos em 25 de julho de 2024.