domingo, 1 - fevereiro 2026 - 16:16



ALERTA DOS CÉUS

Após raio atingir cuiabanas em Brasília, especialistas explicam perigo de temporais em locais abertos


Allan Mesquita / Da Redação
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O clarão no céu veio acompanhado de segundos de silêncio e, logo depois, do desespero. No último domingo (25), uma descarga elétrica durante um temporal atingiu pessoas que participavam de um ato de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na Praça do Cruzeiro, em Brasília. Entre as vítimas estavam as cuiabanas Nathalia Queiroz e Ludmilla, que foram socorridas, levadas ao hospital e passam bem. O episódio reacendeu o alerta: por que raios acontecem com tanta intensidade no verão? Estar em local aberto aumenta o risco? E o que fazer para se proteger?

O FatoAgora conversou com a meteorologista Andrea Ramos e com o major Saboia, do Corpo de Bombeiros de Mato Grosso, para explicar como o fenômeno se forma, quais fatores agravam o perigo e quais cuidados são fundamentais durante temporais dentro e fora de casa.

Segundo a meteorologista Andrea Ramos, o cenário meteorológico já indicava risco elevado. Antes das chuvas, Brasília vinha enfrentando dias consecutivos de calor intenso e tempo seco, o que aquece a atmosfera. A virada ocorreu entre a terça (20) e a quarta-feira, com a atuação de um sistema típico do verão: a Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS).

“Esse sistema favorece chuvas persistentes por vários dias. Primeiro elas costumam ser fracas, depois passam a moderadas e, em alguns momentos, fortes, com volumes mais significativos”, explica Andrea. Esse processo cria o ambiente ideal para ventos intensos e descargas elétricas, especialmente quando se formam as chamadas nuvens cúmulo-nimbos, responsáveis pelas tempestades severas.

A combinação de calor acumulado e entrada de umidade é decisiva. “Com a atmosfera muito quente, qualquer instabilidade favorece o crescimento dessas nuvens de tempestade. A partir daí, você tem chuva forte, raios e, em alguns casos, granizo”, detalha.

A meteorologista ressalta que episódios como esse tendem a se tornar mais frequentes. “Independente de acreditarem ou não nas mudanças climáticas, o que estamos observando é o aumento dos extremos. Eles estão mais frequentes e mais intensos”, afirma.

Dados globais já confirmam essa tendência. “Volumes de chuva esperados para um mês inteiro estão acontecendo em poucas horas. A Organização Meteorológica Mundial já confirmou esse cenário. Os anos de 2023 e 2024 foram os mais quentes já registrados, e 2025 aparece logo em seguida”, pontua Andrea.

No verão, o risco é ainda maior. “Janeiro e fevereiro são os meses mais chuvosos. Calor, umidade e pancadas de chuva fazem parte da estação. É uma condição comum, mas que exige atenção constante”, reforça.

Estar em local aberto faz diferença?

Sim e muita. Andrea explica que ambientes abertos são mais perigosos, especialmente quando não há estruturas de proteção. “Os raios acontecem mais em áreas rurais ou abertas do que em locais com edificações. Em áreas urbanas, prédios e para-raios ajudam a dissipar a descarga”, diz.

Ela alerta para riscos específicos: evitar proximidade com árvores, postes, redes de transmissão e estruturas metálicas. “O carro, por exemplo, é um dos locais mais seguros, por causa do efeito conhecido como gaiola de Faraday, que distribui a descarga pela lataria e a conduz ao solo”, explica. A recomendação é permanecer dentro do veículo, com vidros fechados, sem tocar em partes metálicas.

Outro ponto sensível é o uso de aparelhos eletrônicos. “O celular é perigoso quando está carregando, até dentro de casa. Já houve casos fatais por causa disso”, alerta a meteorologista, ao citar acidentes já registrados no Distrito Federal.

Multidão atrai raios?

De acordo com o major Saboia, do Corpo de Bombeiros, a presença de muitas pessoas reunidas não atrai raios por si só, mas o contexto importa. “Não necessariamente. Depende muito da região e se as pessoas estão próximas de pontos mais altos, que são os mais favorecidos para incidência de raios”, explica.

Ainda assim, ele reforça: “Áreas abertas durante tempestades são sempre suscetíveis. Se você escuta o trovão, já está dentro da área de risco”.

Dados da concessionária Energisa apontam um aumento significativo no registro de quedas de raios em Mato Grosso. Em todo o estado, o número de descargas atmosféricas passou de 7.405.628 em 2024 para 9.776.955 em 2025, o que representa uma elevação expressiva de ocorrências. Na região metropolitana, os registros também cresceram, saindo de 597.768 em 2024 para 905.426 em 2025. O avanço é observado ainda no recorte mensal: apenas em dezembro, Mato Grosso contabilizou 950.583 raios em 2024, número que subiu para 1.078.834 em 2025, um aumento de 13%. Segundo a Energisa, o crescimento está associado à intensificação das instabilidades climáticas, o que reforça a necessidade de atenção redobrada da população durante tempestades.

Em caso de alguém ser atingido por um raio, ele esclarece que é seguro prestar ajuda. “A descarga é momentânea, não fica propagando pela pessoa. Diferente de um fio elétrico energizado”, afirma.

A orientação é retirar a vítima da área de risco, se possível, e acionar o socorro imediatamente. “Ações simples, como conforto e primeiros socorros, podem e devem ser feitas”, diz.

Dentro de casa, os cuidados também são importantes: sair de piscinas, evitar banhos durante tempestades, retirar equipamentos não essenciais das tomadas e manter a rede elétrica da residência em boas condições.

 


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