- CUIABÁ
- TERÇA-FEIRA, 24 , MARÇO 2026
A violência contra a mulher no Brasil encontrou no ambiente digital um novo e fértil terreno para expansão. Impulsionada pela disseminação de discursos de ódio, ameaças e a exposição não consentida de conteúdos íntimos, a criminalidade virtual é apontada por especialistas como uma extensão direta da desigualdade de gênero que já impera fora das telas.
O Ciclo do Abuso: Manipulação e Extorsão
Relatos de vítimas revelam o modus operandi de agressores que utilizam o anonimato para exercer controle. Uma sobrevivente, que optou pelo anonimato, descreve como uma interação iniciada em redes sociais evoluiu para um cenário de violência psicológica e financeira. Após romper um vínculo de trinta dias, a mulher passou a ser alvo de ameaças por terceiros e tentativas de extorsão.
“Ele afirmou que o ‘justo’ seria ficarmos juntos, o que não fazia sentido. Depois, exigiu o depósito de R$ 1.200, configurando extorsão”, relata a vítima.
Mesmo após buscar auxílio policial, a exposição ocorreu: imagens íntimas foram enviadas a familiares de seu atual companheiro. O dano reputacional e psicológico foi profundo. “Demorei muito tempo para voltar a conviver com a família do meu companheiro sem sentir vergonha”, desabafa. Posteriormente, descobriu-se que o agressor utilizava o perfil de uma pessoa falecida, evidenciando o uso estratégico de identidades falsas.
Estatísticas em Ascensão
Os números corroboram a gravidade do cenário. Segundo dados do DataSenado, cerca de 8,8 milhões de brasileiras (uma em cada dez mulheres acima de 16 anos) sofreram algum tipo de violência digital em um intervalo de 12 meses. A Safernet Brasil alerta para um dado ainda mais drástico: entre 2024 e 2025, houve um salto de 200% nas denúncias de misoginia online.
Juliana Andrade Cunha, diretora da Safernet, explica que a tecnologia facilita a incitação ao ódio e a “pornografia de vingança”. Paralelamente, levantamentos acadêmicos indicam que comunidades que propagam o ódio às mulheres seguem em expansão; em 2024, 90% desses canais continuavam operando livremente, mobilizando milhões de seguidores.
Amparo Legal e Preservação de Provas
Embora o crime digital pareça impune, a legislação brasileira avançou. A divulgação de imagens íntimas sem consentimento pode acarretar até cinco anos de reclusão. Além disso, o crime de stalking (perseguição), tipificado em 2021, prevê penas de até três anos, com agravantes quando a vítima é mulher.
Para garantir a punição, a delegada Judá Marcondes ressalta a importância da materialidade do crime:
Prints e Gravações: Registrar imediatamente todas as mensagens e imagens.
Preservação de URLs: Anotar os endereços de perfis e links de postagens.
Relatório Digital: Gravar a tela do celular navegando pelo conteúdo criminoso para evitar a perda de provas caso o agressor apague o perfil.
Hoje, a vítima mencionada utiliza o trauma como motor para a educação. Dentro de casa, foca na criação dos filhos sob a ótica do respeito absoluto, buscando romper o ciclo que permite que novas gerações reproduzam a violência que ela enfrentou.