- CUIABÁ
- SÁBADO, 25 , JULHO 2026
A presença constante do prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL), nas dependências da Câmara Municipal voltou a provocar embates entre o Executivo e o Legislativo. As críticas se intensificaram após o gestor utilizar o espaço da Casa para conceder entrevistas e fazer duras críticas aos vereadores, episódio que motivou manifestações em plenário e reacendeu o debate sobre os limites institucionais entre os Poderes.
Durante a sessão desta quinta-feira (23), as vereadoras Maysa Leão (Republicanos) e Katiuscia Mantelli (Podemos) contestaram a postura do prefeito, alegando que o espaço do Legislativo tem sido utilizado para desqualificar o trabalho parlamentar e interferir em investigações conduzidas pela própria Câmara.
A reação ocorreu após Abílio comentar, nas dependências da Casa, a rejeição da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), ocasião em que classificou vereadores como “incompetentes”, “ineficientes” e “despreparados”.
Da tribuna, Maysa Leão afirmou que o ambiente político tem sido prejudicado por disputas que, segundo ela, comprometem o funcionamento do Legislativo e enfraquecem a instituição perante a população.
“O prefeito transformou a recepção desta Casa em um circo e em sua sala de imprensa particular para vilipendiar o nome de vereadoras. Isso não enfraquece a vereadora A ou B. Isso enfraquece esta Casa. Nunca foi visto algo assim”, declarou.
A parlamentar ressaltou que a crítica não diz respeito ao direito de circulação do prefeito nas dependências da Câmara, mas à utilização do espaço institucional para confrontar publicamente vereadores e desgastar a imagem do Legislativo.
Outro foco de tensão envolve as investigações sobre denúncias de assédio sexual atribuídas a um ex-integrante da gestão municipal. Katiuscia Mantelli rebateu declarações do prefeito de que a Comissão Especial teria falhado na apuração e afirmou que o principal investigado, o ex-chefe de gabinete Willian Leite, recusou-se a prestar esclarecimentos.
Segundo a vereadora, a comissão não possui poder legal para convocar testemunhas ou investigados, podendo apenas encaminhar convites. Ela defendeu que, diante da resistência do ex-servidor em comparecer, a Câmara avalie a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).
“O prefeito mentiu quando disse que todos os envolvidos foram ouvidos. A Comissão Especial não tem poder de convocação, apenas de convite. A vítima e secretários compareceram, mas o principal suspeito se recusou a prestar depoimento. Isso não é ineficiência, é boicote”, afirmou.
Katiuscia também criticou a postura do chefe do Executivo, argumentando que ele deveria concentrar esforços em responder aos apontamentos feitos pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT) relacionados à merenda escolar e à educação municipal.
Durante o debate, a presidente da Câmara, Paula Calil (PL), cobrou a conclusão dos trabalhos da Comissão Especial responsável pela apuração das denúncias. Segundo ela, o relatório final precisa ser protocolado para que seja apresentado ao plenário.
“Todos nós queremos saber a verdade do que foi apurado. O prazo já extrapolou e precisamos que esse relatório seja entregue para que o plenário tenha conhecimento das conclusões sobre o possível caso de assédio e os supostos desvios de recursos na Prefeitura”, afirmou.
Na mesma sessão, Maysa Leão revelou que discordou de um parecer preliminar elaborado pela Procuradoria-Geral da Câmara. A vereadora classificou o documento como “ultrajante” e acusou o procurador-geral, Eustáquio Inácio de Noronha Neto, de tentar minimizar o relato de uma servidora grávida ao descrever a conduta do investigado como uma tentativa de “roubar-lhe alguns beijos”.
Em resposta às manifestações das vereadoras, Abílio Brunini negou que utilize a Câmara como espaço exclusivo para conceder entrevistas e afirmou que apenas responde aos questionamentos feitos pela imprensa, independentemente do local onde esteja.
“Ela tem que reclamar é com vocês. Vocês que perguntam para mim. Se é do lado de dentro da recepção, na calçada ou em qualquer lugar que eu estiver, são vocês que perguntam. Se ela está querendo impedir a atividade da imprensa, esse questionamento deve ser feito por vocês”, declarou.
O prefeito explicou que frequenta a Câmara para reuniões políticas, conversas com parlamentares e compromissos pessoais, incluindo encontros com sua esposa, a vereadora Samantha Iris (PL). Segundo ele, as entrevistas ocorrem de forma espontânea, conforme a abordagem dos jornalistas.
“Acredito que o que talvez a incomode seja que vocês querem saber a minha opinião. Se ela quiser ser mais entrevistada, entrevistem ela mais vezes. Se ela for à Prefeitura, podem entrevistá-la lá também”, afirmou.
Ao concluir, Abílio defendeu sua presença nas dependências do Legislativo e argumentou que o prédio pertence à população.
“Aqui é a casa do povo. É um espaço democrático. Qualquer cidadão pode entrar e, se vocês quiserem fazer perguntas, eu respondo sem problema algum”, disse.
O episódio amplia o desgaste entre Executivo e Legislativo em Cuiabá, em um momento marcado por divergências políticas, críticas mútuas e disputas em torno das investigações conduzidas pela Câmara Municipal.