- CUIABÁ
- SEGUNDA-FEIRA, 10 , AGOSTO 2026
Candidato ao Senado pelo União Brasil, o ex-governador Mauro Mendes elevou o tom contra seus adversários políticos após a deflagração da Operação Heritage, da Polícia Federal, e classificou a investigação como uma suposta “armação eleitoral” para atingir seu grupo político às vésperas das eleições.
Em duas publicações feitas nas redes sociais, Mauro relacionou a operação a mudanças recentes no cenário político de Mato Grosso e questionou o momento escolhido para a ação. Segundo ele, a operação ocorreu pouco depois de decisões que alteraram a composição do grupo que comandava a articulação para as eleições.
Em uma das artes, o ex-governador cita a rejeição do senador Jayme Campos como candidato pelo União Brasil, o afastamento de Janaina Riva (MDB) da composição como vice e a decisão de seu grupo de não se aliar às chamadas “velhas raposas da política que sempre lesaram o Estado”.
Na sequência, Mauro faz uma provocação aos seguidores: “Você acredita em tantas coincidências?”
O ex-governador também questionou a possibilidade de a investigação ter sido influenciada por interesses políticos. Ele afirmou reconhecer a Polícia Federal como uma instituição séria, mas ponderou que, na sua avaliação, existem pessoas dentro dos órgãos que “podem falhar ou serem induzidas a erro”.
Mauro ainda resgatou uma operação realizada contra ele em 2014, afirmando que o caso acabou arquivado pela Justiça três anos depois.
“Em 2014, Mauro foi alvo de operação da PF e tudo foi arquivado em 2017. Agora acontecerá o mesmo!”, publicou.
Em outra postagem, o candidato ao Senado foi ainda mais direto ao apontar uma suposta motivação eleitoral para a investigação.
“O único objetivo de toda essa armação dos adversários é aplicar um golpe eleitoral a 60 dias das eleições”, afirmou.
Defesa cita aval de órgãos de controle
A estratégia de Mauro é baseada, principalmente, em manifestações anteriores de órgãos de controle sobre o acordo de R$ 308,1 milhões firmado entre o Governo de Mato Grosso e a Oi.
O ex-governador sustenta que o negócio passou pelo Ministério Público de Contas (MPC), Ministério Público Estadual (MPE) e Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT), sem que fossem apontadas irregularidades na negociação.
Em junho de 2025, o procurador-geral de Contas, Alisson Carvalho de Alencar, analisou uma representação apresentada por Janaina Riva e concluiu pela improcedência da denúncia, não identificando, naquele momento, indícios de irregularidades na condução do acordo.
O MPC também analisou a destinação dos recursos aos fundos Royal Capital e Lotte Word e afirmou não ter encontrado indícios de fraude, irregularidade ou beneficiamento pessoal. Segundo a manifestação, os pagamentos seguiram os procedimentos relacionados à cessão de créditos, homologação judicial e execução do Termo de Autocomposição.
Em março deste ano, o TCE-MT também analisou o caso. O conselheiro Guilherme Maluf destacou que o acordo havia passado pela Procuradoria-Geral do Estado e sido homologado pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso.
A Corte ainda apontou que a negociação representou uma vantagem econômica para o Estado. A Oi e seus cessionários cobravam R$ 583,4 milhões, enquanto o acordo foi fechado por R$ 308,1 milhões, uma diferença superior a R$ 275 milhões.
Na conclusão, Maluf afirmou que os elementos analisados apontavam para a regularidade do termo de autocomposição e citou manifestações técnicas do TCE e do MPC que não identificaram “indícios de irregularidades ou desvios de finalidade”.
Dias depois, o MPE também analisou uma ação apresentada pelo ex-governador Pedro Taques. O subprocurador-geral de Justiça Marcelo Ferra de Carvalho considerou demonstradas a legalidade do acordo e a ausência de prejuízo ao patrimônio público.
PF investiga destino dos R$ 308 milhões
Apesar das manifestações anteriores dos órgãos de controle, a Polícia Federal passou a investigar especificamente a movimentação e a destinação dos recursos relacionados ao acordo.
Segundo a investigação, parte dos valores teria passado por fundos de investimento administrados pelo Banco Master, em uma estrutura que, em tese, poderia ter dificultado o rastreamento do dinheiro.
A decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a Operação Heritage, determinou que a Master S.A. Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários entregue documentos referentes a cinco fundos investigados.
Entre eles estão o Royal Capital Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, Zurich Fundo de Investimento Multimercado Crédito Privado, London Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia, Lotte Word Fundo de Investimento em Direitos Creditórios e Coliseu Fundo de Investimento em Direitos Creditórios.
A documentação inclui contratos, extratos, registros das carteiras de investimentos, informações sobre o lastro dos direitos creditórios, relatórios de auditoria e compliance, além de dados sobre cotistas e beneficiários finais.
A PF apura, em tese, crimes como organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro, crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e uso indevido de informação privilegiada.
Mauro Mendes nega qualquer irregularidade e afirma que o acordo foi submetido aos órgãos de controle e trouxe vantagem financeira ao Estado. A investigação da Polícia Federal continua em andamento e ainda deverá esclarecer se houve irregularidades na movimentação e na destinação dos recursos.