quinta-feira, 29 - outubro 2026 - 14:31



NA CARA DURA

Esquema de corrupção era operado em banco dentro do próprio TCE, aponta PF; 'modus operandi' espanta investigadores


Allan Mesquita / Da Redação
TCE
TCE

A investigação da Polícia Federal, que culminou na Operação Tomada de Contas nesta quinta-feira (29), identificou que os investigados utilizavam uma agência bancária da cooperativa Sicoob instalada dentro do próprio Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT) para realizar saques e movimentar grandes quantias em dinheiro relacionadas ao suposto esquema de fraudes em contratos. O “modus operandi” teria espantado até mesmo os próprios investigadores, por ter ocorrido sem nenhum pudor.

As operações foram registradas por câmeras de segurança do posto bancário e analisadas pelos investigadores, que identificaram a participação de servidores do órgão na retirada e na circulação dos valores em espécie. A decisão do ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que decretou a prisão preventiva do presidente do TCE-MT, Sérgio Ricardo de Almeida, e de outros 5  investigados, descreve uma série de movimentações realizadas no local entre setembro e outubro de 2025. Os registros, segundo a decisão, mostram pessoas retirando dinheiro, transportando valores em mochilas e realizando procedimentos considerados atípicos durante os atendimentos.

O laudo citado na decisão, aponta a ocorrência de “operações reiteradas de retirada e entrega de numerário com a participação de servidores do Tribunal, na sua maioria operacionalizadas por Roseli Loss”. A chefe de gabinete de Sérgio Ricardo é apontada pela investigação como uma das principais responsáveis pela movimentação do dinheiro.

“Chama atenção, ainda, as imagens do circuito interno da agência do Sicoob localizada nas dependências do TCE/MT. A esse respeito, o Laudo n. 10306/2026 evidenciou operações reiteradas de retirada e entrega de numerário com a participação de servidores do Tribunal, na sua maioria operacionalizadas por Roseli Loss, chefe de gabinete de Sérgio Ricardo de Almeida desde 1º/1/2024”, cita.

Outro investigado citado na decisão é Felipe José Glinke, assessor jurídico da Presidência do TCE-MT. As imagens registraram sua presença em episódios de saque nos dias 5, 16 e 23 de setembro e 7 de outubro de 2025.

Em um dos registros, de 23 de setembro, ele teria sinalizado para retardar uma operação após perceber a presença de outra pessoa próxima aos caixas. Segundo a decisão, Felipe só retornou para receber o dinheiro depois que essa pessoa deixou o local.

Em outro episódio, em 7 de outubro, ele teria assinado um documento aparentemente em branco, recebido o numerário e devolvido parte dos valores à funcionária da agência. A quantia aparentemente foi anotada em um caderno mantido na gaveta da atendente, conforme o relato reproduzido na decisão judicial.

Já em 14 de outubro de 2025, policiais observaram um homem com características físicas compatíveis com o secretário- executivo de comissão permanente do TCE-MT e ex-cunhado de Sérgio Ricardo, Adriangelo Barros Antunes, entrando no posto bancário com uma mochila vazia e saindo com ela aparentemente carregada. Em seguida, ele teria seguido para as dependências do tribunal. A decisão ressalva, contudo, que existem limitações quanto ao grau de certeza dos registros visuais.

“A denúncia narrou que os pagamentos seriam direcionados apenas às empresas que se dispusessem a “devolver” parte dos valores para o grupo do Conselheiro Sérgio Ricardo de Almeida, mencionando explicitamente as pessoas que participariam do esquema de corrupção, a exemplo da servidora identificada como Rose, além de Adriangelo, Fernando E André Prieto”, cita um trecho.

A decisão também destaca que as funcionárias do posto bancário são consideradas testemunhas relevantes, devido à interação direta com os investigados durante operações classificadas como atípicas. Por esse motivo, o ministro avaliou que a liberdade dos suspeitos poderia comprometer a coleta de provas. Entre as medidas determinadas pelo STJ estão o cancelamento de procurações e poderes de movimentação das contas investigadas, a proibição de saques em espécie por procuradores nessas contas e a obrigação de comunicar à autoridade policial, em até 24 horas, saques ou provisionamentos iguais ou superiores a R$ 10 mil.

Os investigados também foram proibidos de acessar o TCE-MT e as agências da Sicoob abrangidas pela decisão, além de manter contato com os demais alvos das medidas cautelares e com servidores do tribunal, incluindo empregados do posto bancário.

A decisão não aponta a Sicoob como investigada. A cooperativa aparece como destinatária das determinações judiciais e detentora de registros considerados relevantes para a apuração.

As suspeitas ainda serão investigadas e não representam condenação dos envolvidos. O Ministério Público Federal havia defendido a aplicação de medidas cautelares, mas se manifestou contra as prisões preventivas. O ministro Og Fernandes divergiu desse entendimento e decretou a prisão dos seis investigados.

Tomada de Contas

Na Operação Tomada de Contas, a PF mobilizou mais de 180 policiais para cumprir seis mandados de prisão preventiva e 26 de busca e apreensão em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo. As medidas foram autorizadas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Além de Sérgio Ricardo, estão entre os alvos presos: Grhegory Paiva Pires Moreira Maia, consultor jurídico-geral do TCE-MT; Felipe José Glinke e Adriangelo Barros Antunes, servidores da instituição; Roseli Loss, secretária executiva do tribunal; e Gustavo Fernandes da Silva.

A operação também resultou no afastamento dos conselheiros Guilherme Maluf e Alisson Alencar, que foram alvos de mandados de busca e apreensão. Valter Albano, conselheiro aposentado que integrou a comissão de fiscalização da corte, também foi atingido por medida de afastamento, conforme informações preliminares. A investigação apura indícios de que a suspensão de contratos administrativos teria sido utilizada como mecanismo de pressão sobre fornecedores, além de possível tratamento diferenciado na liberação de recursos públicos.

Também são investigadas divergências nos pagamentos a empresas, movimentações financeiras atípicas envolvendo servidores e saques recorrentes em espécie. A PF busca esclarecer possíveis relações entre créditos bancários e retiradas realizadas nas dependências do tribunal.

Os fatos investigados podem configurar, em tese, crimes contra a Administração Pública, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A investigação está em andamento, e os mandados de prisão preventiva não representam condenação dos investigados.


Entre no nosso canal do Whatsapp e receba noticias em tempo real. Clique Aqui
+