sábado, 3 - janeiro 2026 - 09:54

Antes de matar filho em MT, segurança relatou abalo emocional por não aceitar término com ex


Reprodução
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ALLAN MESQUITA
Da Reportagem

A carta deixada para familiares o segurança Rairo Andrey Borges, de 21 anos, relatou um profundo abalo emocional antes de matar o próprio filho, Davi Lucca da Silva Lemos, de 2 anos e 5 meses, em Sorriso (420 km de Cuiabá), na noite deste sábado (2). No texto, o jovem descreve sentimentos de perda, culpa e desespero, afirmando que não conseguiu lidar com o término com a ex-namorada, que já seguia em outra relação.

Na mensagem, ele relata que ainda alimentava esperança de reconstruir a família, mas afirma que essa expectativa foi destruída após tomar conhecimento do novo relacionamento da ex, envolvendo uma pessoa próxima a ele. Segundo o próprio relato, a descoberta provocou um colapso emocional imediato.

“Quando tive a certeza, meu mundo foi abaixo, porque eu ainda tinha esperança de recuperar minha família. Hoje foi o dia em que perdi ela e que todos me perderam”, escreveu.

Em diversos trechos, o jovem afirma que se sentia responsável pelo sofrimento vivido e insiste que a decisão foi tomada por ele, pedindo que ninguém seja responsabilizado. O texto é marcado por pedidos de perdão direcionados à mãe, à irmã, ao pai, a familiares e amigos, além de declarações de afeto ao filho.

“A culpa disso tudo que está acontecendo é minha, peço perdão a todos”, diz em outro trecho da carta.

O autor do crime também descreve o filho como o bem mais precioso de sua vida e afirma que não conseguia imaginar seguir vivendo diante da situação emocional enfrentada.
“Levei meu filho comigo porque ele era tudo pra mim”, escreveu.

Ao longo do texto, Rairo disse que não conseguiu suportar o sofrimento psicológico. “Eu sempre fui forte, mas infelizmente a depressão me venceu”, afirmou.

A carta ainda contém agradecimentos a pessoas próximas e pedidos para que sua atitude não seja usada para atacar terceiros. Ele reforça, em diferentes momentos, que agiu por escolha própria e pede que não haja julgamentos ou represálias.

O conteúdo da mensagem passou a integrar a investigação conduzida pela Polícia Civil, que apura as circunstâncias do crime. O caso segue sob investigação.

Crime

O segurança estava com o filho em uma kitnet quando matou o filho e posteriormente tentou contra a própria vida. O suspeito foi socorrido e preso posteriormente. Segundo a Polícia Militar, vizinhos estranharam a falta de resposta no imóvel e arrombaram a porta, encontrando o homem em estado grave e o menino sobre a cama, além de uma carta de despedida.

Leia a carta transcrita na íntegra:

A minha carta eu já fiz, não estou dando conta de escrever outra. Então vou mandar esta escrita para que seja divulgada exatamente na hora em que tudo acontecer.
Mãe, me perdoa por isso, mas eu perdi minha família e o amor da minha vida por conta de erros meus. Eu levei meu filho comigo para deixar as pessoas viverem felizes.

Descobri que V. estava se relacionando com uma pessoa que me chamava de irmão. Descobri ontem e, hoje, quando tive a certeza, meu mundo desabou, porque eu ainda tinha esperança de recuperar minha família. Mas eu perdi tudo. A culpa de tudo isso que está acontecendo é minha, e peço perdão a todos.

Não quero ser enterrado no Maranhão, mas aqui em Sorriso. Me desculpa mesmo, mãe. Sei que você não vai querer acreditar, mas foi o que aconteceu. Eu levei o Davi Lucca da Silva Lemos comigo. Peço desculpas a toda a minha família e à família de V.. Levei meu filho comigo porque ele era tudo pra mim e eu não conseguiria continuar vendo V. com outra pessoa, principalmente alguém que eu conhecia e que me chamava de irmão.

Avisei V. que, se um dia eu a perdesse, todos iriam me perder. E realmente hoje foi o dia em que perdi ela e que todos me perderam. Peço a todos que me perdoem pelo que eu fiz, mas infelizmente é isso. Agradeço a todos os familiares e amigos por tudo que fizeram por mim.

Essa data de hoje foi o fim de Rairo Andrey Borges Lemos e de Davi Lucca da Silva Lemos. Eu amo vocês eternamente, mas infelizmente a depressão me venceu. Nunca achei que seria capaz disso, mas fui.

Peço com todo carinho que eu seja enterrado com minha roupa de segurança, era a profissão que eu mais amava.
N., minha irmã, te peço desculpas por ter feito isso. Sei que você vai sofrer muito, você sempre foi muito apegada a mim. Seu irmão sempre foi forte, mas infelizmente a depressão me venceu. Eu e o Davi sempre vamos estar cuidando de vocês, seja lá onde eu estiver. Cuida das minhas sobrinhas, elas ainda vão te dar muito orgulho. Eu te amo.

Pai, o que falar do senhor? O senhor e a tia V. foram maravilhosos na minha vida. Sei que o senhor não foi presente na minha infância, mas quero que saiba que eu amo muito o senhor, meus irmãos, sobrinhos e a tia V..

D. M. A., a senhora foi praticamente uma mãe pra mim. Quando minha mãe foi embora, foi a senhora quem cuidou de mim. A senhora e V. sempre estavam preocupadas comigo, e eu só tenho a agradecer por tudo isso. Muito obrigado. Cuida da V., por favor. Não deixa ela se meter em problemas. Eu sempre amei ela.

Se eu esquecer de alguém especial, me perdoem. Eu não consigo escrever mais. Ao pessoal da cidade, peço que isso seja publicado. Sou mais conhecido como Borges da Segurança. A todos que não esperavam isso de mim, por eu ser uma pessoa alegre e brincalhona, me perdoem.

Essa carta é destinada a toda a minha família, à família de V. e aos meus amigos. Não culpem ninguém pelo que aconteceu, foi uma escolha minha. Eu amo todos vocês e sempre vou cuidar de vocês de onde eu estiver.

Quem receber essa mensagem é sinal de que eu já parti, junto com meu filho. Não me julguem como um monstro por eu ter levado meu filho comigo. Só não queria que ele entrasse em um caminho errado e queria que a mãe dele fosse feliz.

Não sei que dia vão encontrar meu corpo e o do meu filho, mas o endereço é Rua Alencar Bortolanza, nº 1052, casa na lateral dos fundos. Se alguém receber essa mensagem, é porque eu já parti junto com meu filho.

Um grande abraço a todos vocês. Eu amo todos e muito obrigado por terem me conhecido.
Borges da Segurança se foi. 
Desculpa, E. T., você não queria isso, mas aconteceu.

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