quarta-feira, 30 - julho 2025 - 18:37

Brasil negociará como país soberano, diz Lula


Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)

A dois dias da entrada em vigor das tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou, em entrevista ao jornal The New York Times, que o Brasil manterá uma postura soberana nas negociações e não aceitará ser parte de uma nova Guerra Fria contra a China.

Questionado pelo correspondente Jack Nicas se suas críticas públicas ao presidente americano Donald Trump poderiam comprometer o diálogo bilateral, Lula respondeu que não teme retaliações, embora reconheça preocupação com os efeitos econômicos, políticos e tecnológicos das medidas.

“Em nenhum momento o Brasil negociará como se fosse um país pequeno diante de um país grande. O Brasil negociará como um país soberano. Nas relações entre Estados, a vontade de um não pode prevalecer sobre a do outro. É preciso buscar sempre um meio-termo — sem estufar o peito para prometer o que não se pode cumprir, nem abaixar a cabeça para dizer ‘amém’ a tudo que os EUA desejam”, afirmou o presidente.

Lula também rebateu a hipótese de que as tarifas seriam uma reação ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, que responde por tentativa de golpe após as eleições de 2022. Segundo ele, se essa for a motivação, consumidores dos dois países acabarão pagando a conta. “O Brasil tem uma Constituição, e o ex-presidente está sendo julgado com pleno direito de defesa. Se isso for o motivo do tarifaço, então estão punindo os povos, e não um político”, disse.

Separação entre política e comércio

O presidente reforçou que é preciso dissociar disputas políticas de interesses comerciais. “Se Trump quer uma briga política, que ela seja tratada como tal. Se o assunto é comércio, que discutamos comércio. Mas não se pode misturar tudo”, afirmou. Lula exemplificou dizendo que não poderia exigir o fim do bloqueio econômico a Cuba como condição para uma negociação comercial. “Não faço isso por respeito à soberania e à diplomacia dos EUA.”

Ausência de diálogo

O chefe do Executivo também revelou que tentou abrir canais de diálogo com o governo norte-americano, sem sucesso. “Designei o vice-presidente, o ministro da Agricultura e o da Fazenda para conversarem com seus pares americanos. Até agora, não houve retorno”, relatou. Lula mencionou ainda uma carta enviada em 16 de maio ao Departamento de Comércio dos EUA, solicitando diálogo. “A resposta veio pelo site do presidente Trump, com o anúncio das tarifas. Isso mostra que não há interesse em conversar”, concluiu.

Guerra Fria e relação com a China

Ao ser indagado sobre a possibilidade de um alinhamento forçado com os Estados Unidos em meio à tensão crescente com a China, Lula foi enfático: “Temos uma relação comercial extraordinária com a China. Se os Estados Unidos quiserem uma Guerra Fria, o Brasil não participará. Nosso interesse é vender para quem quiser comprar e pagar bem”, disse.

Na segunda-feira (28), o governo chinês também se posicionou contra as tarifas americanas, declarando apoio ao Brasil na defesa de um comércio multilateral baseado em justiça e regido pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Pequim afirmou estar pronta para cooperar com o Brasil e criticou a postura unilateral dos Estados Unidos.

Pragmatismo diante do impacto

Lula finalizou a entrevista reafirmando que o Brasil está pronto para reagir de forma pragmática. “Se as tarifas entrarem em vigor, não vamos chorar o leite derramado. Vamos procurar novos mercados. O Brasil é grande demais para depender de uma única relação comercial”, afirmou.

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