domingo, 22 - fevereiro 2026 - 17:00



ENTENDA O QUE PESA

Arranjo estrutural blinda Abilio na Câmara e expõe Moretti à pressão em VG, avalia cientista


Allan Mesquita / Da Redação
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Filiados ao mesmo Partido Liberal (PL) e eleitos sob a mesma atmosfera conservadora em Mato Grosso, os prefeitos de Cuiabá e Várzea Grande vivem realidades políticas opostas dentro das Câmaras Municipais. Enquanto Abilio Brunini conta com uma base que atua como blindagem institucional da gestão, Flávia Moretti enfrenta um cenário de fragmentação política e tensão permanente no Legislativo.

A avaliação é da cientista política e doutora em Sociologia Christiany Fonseca, em análise enviada ao FatoAgora. Segundo ela, a diferença entre as duas administrações “não é ideológica, nem partidária, mas estrutural”, e está diretamente ligada à forma como cada chefe do Executivo se relaciona com o comando e a maioria da Câmara.

“Quando se compara Cuiabá e Várzea Grande, é preciso reconhecer que estamos falando de dois prefeitos do mesmo partido, o PL, eleitos na mesma atmosfera política conservadora. A pergunta, portanto, não é ideológica. Se ambos pertencem ao mesmo espectro político, por que um governa com estabilidade institucional e o outro enfrenta tensão permanente, inclusive sob risco de uma decisão extrema como a perda de mandato?”, pontua.

Para a analista, a resposta começa pela formação da Mesa Diretora, responsável por conduzir os trabalhos legislativos, definir pautas e dar admissibilidade a pedidos como CPIs e comissões processantes.

Blindagem em Cuiabá

Na avaliação de Christiany, Abilio compreendeu desde o início que governabilidade municipal passa pela construção de maioria organizada e alinhada ao Executivo.

“Em Cuiabá, Abilio Brunini compreendeu desde o início que governabilidade municipal passa pela construção da Mesa Diretora. A eleição da presidência da Câmara não foi um evento isolado; foi parte da estratégia de consolidação da base”, afirma.

Entre uma articulação e outra, o que se estruturou, segundo ela, foi uma maioria funcional, termo usado na ciência política para definir um grupo de vereadores que, independentemente da sigla, vota de forma consistente com o governo.

“Isso significa que o comando da pauta legislativa, a admissibilidade de requerimentos, a instalação de CPIs e a condução das sessões estão sob liderança politicamente compatível com o Executivo. A Mesa não funciona como polo de contraposição permanente, mas como eixo de estabilidade institucional”, acrescenta.

Essa engrenagem ficou evidente, conforme a análise, no episódio envolvendo o então secretário Willian Leite. O caso poderia ter avançado para uma Comissão Parlamentar de Inquérito, ampliando o desgaste político e alcançando o núcleo do governo.

“O que se viu foi uma articulação rápida e coordenada da base governista junto ao Executivo para impedir que o episódio evoluísse institucionalmente. Houve comando, houve maioria funcional e houve uma base que atua de forma inegociável quando se trata de proteger o chefe do Executivo”, descreve.

Na prática, segundo Christiany, a crise foi contida no segundo escalão e não atingiu diretamente o prefeito, reflexo de uma base organizada e de comando centralizado.

Fragmentação em VG

Em Várzea Grande, o cenário institucional começou diferente desde a formação da Mesa Diretora. A Câmara é presidida por Wanderley Cerqueira, do MDB, legenda que não integra o núcleo político da prefeita.

“Em Várzea Grande, a prefeita iniciou o mandato com uma Mesa que não é politicamente orgânica ao seu grupo. Isso altera completamente o equilíbrio institucional”, explica.

Antes mesmo das crises, a correlação de forças já indicava autonomia do Legislativo. A analista contextualiza que o município carrega histórico de forte presença de grupos tradicionais, especialmente ligados à família Campos, o que influencia a dinâmica política local. “A eleição de Flávia Moretti representou ruptura eleitoral, mas não significou desarticulação dessas redes. Parte da Câmara ainda transita nesse campo político tradicional.”

O reflexo dessa estrutura apareceu no episódio envolvendo o uso de slogan da gestão em uniformes escolares, que avançou até a abertura de comissão processante contra a própria prefeita, instrumento que pode culminar em cassação.

“Aqui, a crise não atinge um secretário; atinge diretamente a chefe do Executivo. E comissão processante é instrumento que pode culminar em decisão extrema, inclusive cassação do mandato”, analisa.

Para Christiany, o avanço do processo demonstra que a base governista não opera como bloco automático de defesa. “Ela não dispõe de um núcleo sólido, coeso e inegociável de vereadores que atuem imediatamente para barrar admissibilidade de investigações contra ela. Sua base ampliada é circunstancial, permeável e sujeita a pressões externas”, aponta.

VGN

O peso da vice-prefeitura

Outro ponto ampliado na análise é o papel das vice-prefeituras na dinâmica institucional. Em Várzea Grande, o vice-prefeito Tião da Zaeli possui trajetória política própria, capital eleitoral acumulado e interlocução direta com vereadores.

Esse fator, segundo a cientista política, cria dois polos de negociação dentro do próprio Executivo. “Quando há dois centros com capacidade real de negociação, o Legislativo tende a explorar essa divisão. A prefeita deixa de ser a única referência de mediação. A autoridade se dilui”, pontua.

Ela observa que, nesse cenário, vereadores passam a circular entre diferentes interlocutores dentro do governo, o que enfraquece a centralização política e amplia a margem de pressão da Câmara.

Já em Cuiabá, a interlocução política permanece concentrada no prefeito, sem protagonismo autônomo da vice-prefeitura. “Não há segunda porta de acesso relevante dentro do Executivo. A interlocução política permanece centralizada, o que fortalece a posição do prefeito diante da Câmara”, disse.

Diferença estrutural

Ao concluir a análise, Christiany reforça que a distinção entre os dois municípios não está na sigla partidária, mas na arquitetura de poder construída no início do mandato. “A diferença não está na sigla nem no alinhamento ideológico. Está na estrutura de poder local, na centralização da articulação política e no papel que cada vice-prefeito desempenha dentro do Executivo. De um lado, estabilidade sustentada por maioria organizada e comando unificado. Do outro, tensão permanente alimentada por base permeável, forças tradicionais ainda influentes e fragmentação interna de poder”, pontua.

Assim, enquanto Cuiabá opera sob lógica de blindagem institucional, com base funcional consolidada e controle da agenda legislativa, Várzea Grande enfrenta governabilidade condicionada, dependente de negociações constantes e sujeita a crises que atingem diretamente o centro do poder municipal.


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