- CUIABÁ
- SÁBADO, 31 , OUTUBRO 2026
Uma sequência de imagens de segurança colocou no centro da investigação da Polícia Federal (PF) o presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT), Sérgio Ricardo. As gravações mostram o conselheiro dentro de uma agência do Sicoob, instalada no próprio prédio do Tribunal. A movimentação também envolve integrantes de sua equipe e foi descrita em um relatório que serviu de base para a Operação Tomada de Contas.
O episódio registrado pelas câmeras aconteceu em 30 de setembro de 2025. Na ocasião, o banco recebeu um pedido de provisionamento de meio milhão de reais para saque. No campo destinado à justificativa da operação, foi registrada a informação “para utilização pessoal”.
A PF identificou nas gravações a presença de Sérgio Ricardo, da chefe de gabinete, Roseli Loss, e de Adriangelo Barros Antunes, secretário-executivo da Comissão Permanente de Meio Ambiente e Sustentabilidade do TCE-MT. O relatório chama atenção para a movimentação de Adriangelo, que chegou à agência com uma mala de mão preta aparentemente vazia.
A descrição dos investigadores aponta que, após a saída de Roseli, Adriangelo se dirigiu aos caixas. Quando deixou a agência, a mochila que carregava apresentava uma diferença evidente: estava cheia. Para a PF, o cruzamento das imagens com os registros bancários ajudou a reconstruir a dinâmica dos saques e a participação de pessoas próximas ao presidente do Tribunal.
Milhões em dinheiro vivo
A operação flagrada pelas câmeras não foi tratada pelos investigadores como um episódio isolado. O levantamento financeiro identificou que as contas de Sérgio Ricardo receberam uma “fortuna” de R$ 15,9 milhões do TCE-MT entre janeiro e 22 de outubro de 2025.
No caminho inverso, quase a mesma quantia saiu das contas em dinheiro vivo. Foram 150 retiradas, que alcançaram R$ 15,6 milhões. A maior parte do montante foi sacada diretamente no atendimento bancário, em 64 operações que somaram R$ 15,4 milhões. As outras 86 retiradas ocorreram em caixas eletrônicos.
Entre os registros considerados relevantes estão saques de R$ 500 mil e R$ 490 mil, além de solicitações para disponibilização de novas quantias próximas de meio milhão de reais. O relatório também aponta que as operações atribuídas ao conselheiro ultrapassaram R$ 15,5 milhões entre janeiro e maio de 2026.
A dimensão dos valores chamou a atenção da PF, que identificou R$ 75,8 milhões em movimentações financeiras suspeitas em 294 dias de análise, entre janeiro e outubro de 2025.
Na decisão que autorizou as prisões preventivas, o ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), menciona suspeitas de um esquema envolvendo contratos administrativos do Tribunal de Contas. A hipótese investigada é de que o poder de controlar a liberação, suspensão e retomada de pagamentos teria sido utilizado para beneficiar empresas, com possível retorno de parte dos recursos.
De acordo com a representação da Polícia Federal, Sérgio Ricardo ocuparia posição de comando na estrutura investigada, utilizando operadores financeiros para converter recursos em espécie. A decisão judicial também destaca que as movimentações teriam continuado em 2026, mesmo depois de diligências policiais realizadas na agência bancária.
Tomada de Contas
A investigação resultou na deflagração da Operação Tomada de Contas, na quinta-feira (29), com a prisão preventiva de seis pessoas. Além de Sérgio Ricardo, foram detidos integrantes e pessoas ligadas à estrutura administrativa do TCE-MT.
Entre os presos estão Roseli Loss, chefe de gabinete do presidente; Adriangelo Barros Antunes, secretário-executivo da Comissão Permanente de Meio Ambiente e Sustentabilidade; e Grhegory Paiva Pires Moreira Maia, consultor jurídico-geral do Tribunal.
Depois das audiências de custódia, Sérgio Ricardo foi encaminhado ao Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), em Cuiabá. Roseli foi levada à Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May. Grhegory, Gustavo e Felipe seguiram para o Complexo Penitenciário Ahmenon Lemos Dantas, em Várzea Grande, onde devem ficar em Sala de Estado-Maior por serem advogados.
Adriangelo também teve a prisão preventiva decretada. O local de encaminhamento dele não havia sido confirmado.