- CUIABÁ
- SÁBADO, 17 , JANEIRO 2026


Allan Mesquita
Reportagem
Por volta das 7h da manhã, quando o sol já iluminava com intensidade as lavouras, a reportagem do FatoAgora chegou ao Centro Tecnológico Parecis (CTECNO Parecis), em Campo Novo do Parecis (401 km de Cuiabá). Recebemos uma bag com chapéu, capa e agenda para anotar cada detalhe. Aliás, o dia seria longo e de muito conhecimento. Em meio a uma área experimental de 86 hectares, fomos recebidos pela agrônoma e pesquisadora Daniela Basso Facco, que há 5 anos atua diretamente na estação e hoje é uma das integrantes da equipe de estudiosos responsáveis por transformar ciência em decisões práticas para o produtor rural.
A visita técnica realizada na quinta-feira (15) marcou a comemoração dos 10 anos do CTECNO Parecis, criado em 2015 a partir de uma parceria entre a Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja) Mato Grosso e o Instituto Mato-grossense do Agronegócio (Iagro MT). O centro nasceu com uma missão clara: gerar conhecimento aplicado para áreas com solos de textura média e arenosa, que apresentam grandes desafios de produtividade devido à baixa retenção de água e nutrientes. É esse tipo de solo que abrange boa parte do estado que a pesquisa acontece.

O campo é um mosaico de experimentos que incluem, na safra principal, o cultivo da soja, com mais de 30 protocolos testando diferentes variedades e respostas a adubos e biológicos. Na sequência, entra o milho, avaliado em diversos híbridos e estratégias de nutrição. Contudo, o grande diferencial da estação é o plantio estratégico de plantas de cobertura, com destaque para a braquiária, utilizada para a formação de palhada e ciclagem de nutrientes.
Segundo Daniela, o destaque do CTECNO está na constância dos trabalhos. “Estamos conduzindo entre 35 a 40 experimentos por ano, muitos de longa duração. Fazemos o mesmo manejo há 8 anos na mesma área para mostrar ao produtor o que acontece no longo prazo”, disse.
Um dos experimentos acompanhados durante a visita avalia o impacto do uso de diferentes plantas de cobertura em áreas de solo arenoso. Na prática, a equipe do CTECNO mantém o mesmo manejo todos os anos na mesma área, mudando apenas a espécie utilizada para formar palhada entre uma safra e outra.
Segundo a pesquisadora Daniela Basso Facco, o objetivo é observar como cada planta de cobertura influencia a produtividade da soja ao longo do tempo. “Aqui a gente consegue enxergar claramente a diferença entre os manejos. Apenas mudando a planta de cobertura, temos áreas com até 20 sacas a mais de soja por hectare”, afirmou.
O resultado está ligado à conservação do solo, já que a palhada protege a superfície contra o calor excessivo, melhora a retenção de umidade e favorece a atividade biológica. “Em solos arenosos, se o produtor não proteger o solo, ele perde água e nutrientes muito rápido. Esse experimento mostra que o retorno vem quando o manejo é contínuo”, explicou Daniela.
Essa abordagem, segundo a pesquisadora, dá segurança ao produtor. “Muitas vezes o agricultor faz um manejo por um ano, não vê resultado imediato e abandona, achando que não funciona. Mas, na verdade, a resposta vem com o tempo. E é isso que conseguimos mostrar aqui”, explicou.

Por que solos arenosos exigem mais atenção?
Durante a caminhada pelos talhões experimentais, Daniela detalhou as características dos solos estudados no centro. De forma simples, ela explicou que o solo é composto por partículas minerais, matéria orgânica e água. “Quando falamos em solos arenosos, estamos falando de áreas com menos de 15% de argila. Isso significa menor capacidade de reter água e nutrientes, além de maior risco de erosão”, disse.
Em termos práticos, isso quer dizer que o solo seca mais rápido, perde nutrientes com facilidade e exige manejos muito bem planejados. “Por isso a pesquisa é tão importante. Hoje, uma parcela considerável dessas áreas arenosas já é agrícola em Mato Grosso, e o desafio é torná-las produtivas sem degradar o solo”, afirmou.
Ao longo de 10 anos de pesquisa, um resultado se repetiu em diferentes experimentos: os manejos que conservam o solo são os que mais entregam produtividade. “Um solo pode até ter uma química boa, mas se ele for biologicamente pobre, a produtividade não se expressa”, explicou Daniela.
Ela destacou práticas como manutenção de palhada, diversidade de culturas, uso de plantas de cobertura e não “revirar” o solo. “Hoje temos áreas aqui com diferenças de até 20 sacas de soja por hectare, apenas mudando a planta de cobertura. É uma diferença muito grande”, ressaltou.
Adubação ajustada evita desperdício e aumenta eficiência
Outro ponto central das pesquisas é o manejo correto dos nutrientes. Daniela explicou que cada nutriente tem um comportamento diferente no solo. “O fósforo, por exemplo, não se perde facilmente. Se o produtor já tem nível alto no solo, em alguns casos ele pode reduzir ou até retirar a adubação”, disse.
Já o enxofre exige atenção redobrada. “Ele lixivia, ou seja, desce no solo com a água e fica fora do alcance das raízes. Então não dá para deixar de adubar. A estratégia é aplicar apenas o necessário, para evitar desperdício e impacto ambiental”, explicou.
Esses ajustes, segundo ela, aumentam a eficiência do sistema e reduzem custos. “Em solos arenosos, tudo precisa ser mais bem planejado. Planta de cobertura ajuda a reciclar nutrientes e manter o sistema funcionando”, completou.

Na sequência da nossa visita, fomos para a abertura oficial do evento no galpão principal. Às 8h, a Cerimônia de Abertura contou com a presença de autoridades locais, pesquisadores do CTECNO, a diretoria da Aprosoja MT, além de uma plateia atenta de produtores e admiradores do projeto.
Após o almoço, retornamos ao campo, onde a reportagem encontrou o produtor Mário Zorté Antunes Júnior, da região de Diamantino (186 km de Cuiabá), que acompanhava atentamente os resultados experimentos. Ele estava acompanhado dos 3 filhos menores, que caminharam com ele entre os talhões, observando, perguntando e aprendendo.
Mário produz cerca de 5 mil hectares, com soja, milho e pecuária, incluindo uma terceira safra com gado. Frequentador assíduo do CTECNO, ele participou do evento pela sexta vez. “A participação aqui é extremamente importante porque conseguimos enxergar possibilidades que funcionaram e aplicar isso lá no campo”, afirmou.

Segundo ele, os experimentos realizados sem interferência comercial trazem segurança. “Aqui a pesquisa ocorre sem influência externa. Isso nos dá confiança nas tomadas de decisão. Muitas vezes conseguimos economizar evitando erros”, disse.
Para o produtor, a pesquisa reflete diretamente na renda. “A produtividade aumenta e isso impacta no financeiro, que hoje é um dos maiores desafios do produtor rural”, destacou.

Além do dia de campo, os resultados do CTECNO são divulgados por meio de boletins técnicos, circulares, rodadas técnicas nos 35 núcleos da Aprosoja em Mato Grosso e participação em eventos e congressos. Ao completar 10 anos, o CTECNO Parecis se consolida como referência em pesquisa aplicada para solos desafiadores. Os resultados mostram que, mesmo em ambientes com limitações naturais, é possível produzir bem, desde que o manejo seja baseado em conhecimento técnico e visão de longo prazo.
O presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Lucas Costa Beber, destacou que o conhecimento é o melhor antídoto contra o prejuízo. “Muitas vezes pagamos caro pela falta de conhecimento. Aqui é um centro mantido pelos produtores onde podemos nos dar ao luxo de errar e acertar, replicando apenas o que de fato dá resultado estatístico ao longo dos anos”, concluiu.
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