segunda-feira, 1 - junho 2026 - 10:31



‘COISA DE BANDIDO’

Conselheiro diz que boletins foram fraudados para justificar compra milionária de livros em Cuiabá; ‘quadrilha organizada e burra’


Allan Mesquita / Da Redação

Após passar todo o domingo (31) analisando documentos, livros didáticos e relatórios de fiscalização, o presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT), conselheiro Sérgio Ricardo, fez uma transmissão ao vivo de cerca de 40 minutos em sua residência e elevou o tom das denúncias envolvendo a compra de materiais pedagógicos pela Secretaria Municipal de Educação de Cuiabá. O conselheiro afirmou que identificou indícios de fraude em boletins escolares e classificou os responsáveis pelo negócio como uma “quadrilha organizada, desonesta e burra”.

A live ocorreu dois dias após a fiscalização realizada pelo TCE-MT no Almoxarifado da Educação e na Escola Municipal Francisco Pedroso da Silva, em Cuiabá. A inspeção foi motivada por denúncias apresentadas pelo prefeito Abilio Brunini (PL), que apontou possíveis irregularidades em contratos que poderiam alcançar R$ 159 milhões entre 2025 e 2026.

Durante a transmissão, Sérgio Ricardo exibiu livros de educação financeira e informática adquiridos pela gestão anterior e afirmou que parte do material jamais poderia ser utilizada nas escolas municipais por não fazer parte da grade curricular.

“Passei o domingo estudando esse material todo. Encontramos muito material totalmente desnecessário e inutilizável. A prefeitura comprou pelo menos 50 mil livros de educação financeira para zero utilização. Em momento nenhum houve utilização porque essa matéria não existe na grade curricular das escolas municipais”, declarou.

O trecho mais impactante da live ocorreu quando o presidente do TCE detalhou o que considera ser uma tentativa de justificar a compra dos kits de informática. Segundo ele, auditores do tribunal encontraram boletins escolares contendo a disciplina de computação, mesmo em escolas sem laboratório de informática, sem computadores e sem aulas da matéria.

Ao mostrar um boletim escolar durante a transmissão, Sérgio Ricardo afirmou que a disciplina teria sido inserida posteriormente para dar aparência de legalidade à aquisição dos materiais.

“Os malandros que venderam toda essa coleção de informática, os bandidos que venderam e os bandidos que compraram, inseriram fraudulentamente a matéria de computação no boletim”, afirmou.

O conselheiro relatou ainda que uma mãe procurou a direção da escola após perceber que a filha havia recebido nota sete em computação sem nunca ter frequentado uma única aula da disciplina.

“A diretora me contou que a mãe foi à escola questionar. A criança nunca teve aula de computação, não tem computador, não sabe mexer em computador e aparece com nota sete na matéria. Isso é crime. Isso é coisa de bandido”, disparou.

Em seguida, Sérgio Ricardo ironizou os supostos responsáveis pelas irregularidades ao afirmar que a fraude teria sido cometida de forma amadora.

“A quadrilha é organizada e burra”, declarou durante a live.

Segundo o presidente do TCE, a suposta adulteração dos boletins reforça as suspeitas de que houve uma estrutura montada para justificar contratos milionários envolvendo materiais pedagógicos sem aplicação prática na rede municipal.

Ao longo da transmissão, o conselheiro também voltou a afirmar que Cuiabá teria desperdiçado aproximadamente R$ 50 milhões com materiais que permanecem armazenados sem uso. Conforme a auditoria preliminar, cerca de 16 mil livros de educação financeira foram encontrados estocados no centro de distribuição da Secretaria Municipal de Educação. Cada exemplar teria custado entre R$ 115 e R$ 130.

“O município jogou fora R$ 50 milhões. Havia um planejamento de R$ 160 milhões para 2025 e 2026. Pagaram milhões por materiais que não servem para nada dentro da realidade das escolas”, criticou.

Durante a live, Sérgio Ricardo também citou o ex-secretário municipal de Educação, Amauri Monge Fernandes, que posteriormente assumiu cargo na Secretaria de Estado de Educação (Seduc-MT). O presidente do TCE afirmou que as investigações não ficarão restritas à capital e adiantou que o tribunal irá ampliar as auditorias para contratos da educação estadual e de outros municípios mato-grossenses.

A fiscalização realizada na sexta-feira já havia identificado livros com erros de conteúdo, materiais destinados a disciplinas inexistentes na rede municipal e indícios de manipulação de registros escolares. Na ocasião, Sérgio Ricardo anunciou uma auditoria completa para apurar a legalidade das aquisições, a qualidade dos materiais, os valores pagos e a efetiva utilização dos produtos comprados.

Além da investigação sobre os contratos da educação municipal, o presidente do TCE revelou que o órgão também abriu uma auditoria para verificar denúncias relacionadas aos indicadores do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) apresentados pela Secretaria de Estado de Educação.

“Se isso está acontecendo em Cuiabá, imagina no interior. Vamos investigar todas as prefeituras e também as aquisições da Secretaria de Estado de Educação para saber quanto dinheiro público foi desperdiçado”, concluiu.


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