quinta-feira, 19 - fevereiro 2026 - 15:34



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CV expulsa ‘piratas do ouro’ e toma garimpos em terras indígenas de MT


Allan Mesquita / Da Redação
TV Globo
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A facção criminosa Comando Vermelho (CV) tem avançado sobre áreas de garimpo ilegal na Terra Indígena Sararé, em Mato Grosso, expulsando intermediários e assumindo diretamente a extração de ouro. Em 3 anos, mais de 3 mil dos 67 mil hectares do território foram devastados, em um cenário descrito por autoridades como de “terra arrasada”.

De acordo com o delegado regional da Polícia Civil, João Paulo Berté, a entrada do crime organizado elevou o nível de exploração e violência na região. De acordo com ele, integrantes de facções passaram inicialmente a vender drogas aos garimpeiros por valores superiores aos praticados nas cidades, mas depois decidiram assumir o controle da atividade.

“Alguns membros das facções iam até a região do garimpo para comercializar droga em valores muito maiores aos valores praticados na rua, nas cidades. Posteriormente, eles perceberam que, se eles eliminassem o intermediário, os garimpeiros, e passassem eles mesmos a explorarem a atividade de extração de ouro, isso traria um lucro muito maior”, afirmou em reportagem exibida pelo Jornal Hoje (TV Globo), nesta quinta-feira (19).

Com isso, pontos estratégicos da área passaram a ser dominados por facções criminosas. O impacto recai diretamente sobre o povo Nambikwara-Katitaurlu, que soma cerca de 200 indígenas e vive no território afetado. “É lugar que se não brota mais. O que lá é lugar de areia lavada. Porque a areia é lavada. Como é que vai a brota de novas? Não vai brota”, relatou um indígena, ao descrever a degradação causada pela retirada do ouro.

A entrevista foi concedida em agosto do ano passado, quando o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) iniciou uma ação integrada com forças federais e estaduais para expulsar invasores. Durante 3 meses, mais de 170 escavadeiras e 650 acampamentos foram destruídos. Em outubro, os alertas de garimpo chegaram a zerar, mas as tentativas de reocupação persistem.

O presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, afirmou que a alta no preço do ouro tem incentivado novas invasões. “O ouro está batendo recordes e isso incentiva, de certa forma, muitas pessoas a tentar ganhar vida numa região bastante exposta, com muitas entradas. É uma terra indígena que, infelizmente, sofre demais com a invasão dos garimpos ilegais. Em dezembro, nós destruímos todos os acampamentos, todas as estruturas, mas o que a gente percebe é uma tentativa permanente de reentrada desses garimpeiros dentro das terras indígenas. Como o ouro está valendo muito dinheiro as pessoas acabam assumindo o risco e reentrando nesses territórios”, declarou.

As últimas operações ocorreram em dezembro, com participação do Ibama, Polícia Federal, Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Força Nacional e Polícia Militar de Mato Grosso. Ao todo, 21 operações integradas foram realizadas na Terra Indígena Sararé nos últimos dois anos. A Polícia Federal também investiga os responsáveis pelos maquinários e explosivos apreendidos.

Dados apontam que os alertas de mineração ilegal caíram de 280 em abril de 2025 para 6 em janeiro deste ano. Apesar da redução, o risco de retomada permanece.

A Justiça determinou que o governo Federal apresente até o fim de março um plano mais detalhado, com integração entre forças de segurança e fiscalização ambiental, para pôr fim ao garimpo ilegal na área. A decisão ocorre no âmbito de uma ação civil pública que pede a criação de um grupo de trabalho permanente para garantir a expulsão dos invasores.

Em nota, o Ministério dos Povos Indígenas informou que, por meio do Comitê Interministerial de Desintrusão, está elaborando um plano para reforçar a atuação na região.

“Obviamente que a adesão judicial nos dá mais respaldo, garante orçamento, garante uma série de outras ações. E as ações de desintrusão incluem outras medidas além da ação de fiscalização, inclui o atendimento aos povos indígenas, que aí não é feito pelo IBAMA, é feito diretamente pela Funai e outras instituições”, acrescentou Agostinho.


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