- CUIABÁ
- SEGUNDA-FEIRA, 12 , JANEIRO 2026


ALLAN MESQUITA
Reportagem
Um estudante do curso de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) foi expulso da instituição às vésperas da formatura, no Campus de Sinop (500 km de Cuiabá). A decisão administrativa teve como base a “gravidade dos fatos apurados” em uma sindicância que apontou “prática incompatíveis com a vida universitária”.
Conforme apurou o FatoAgora, a expulsão se deu devido ao uso indevido de um receituário médico. Em relato anexado aos autos do processo, o próprio estudante admite que assinou uma receita de antibiótico em seu nome enquanto aguardava atendimento em uma Unidade Básica de Saúde (UBS). O aluno se preparava para o último semestre do curso, que tem duração de 6 anos.
De acordo com ele, após esperar mais de 45 minutos para ser atendido e temer chegar atrasado ao estágio, ambiente que descreve como marcado por humilhações, tomou a decisão de preencher e assinar a prescrição. “Em um momento de desespero, eu fiz o que já era rotina para um estagiário: fazer receitas. Dessa vez para mim mesmo. Em alguns minutos, eu assinei e saí”, afirmou o acadêmico que prefere ter a identidade preservada.
O episódio resultou no registro de um boletim de ocorrência por parte de uma orientadora, levando à judicialização do caso, ao afastamento imediato do acadêmico das atividades práticas e, posteriormente, à sua expulsão definitiva da universidade.
Segundo a UFMT, o processo disciplinar respeitou os princípios do contraditório e da ampla defesa. “Considerando que o processo observou o contraditório, a ampla defesa e o devido processo legal, nos termos do Regimento de Disciplina do Corpo Discente da UFMT, aprovado pela Resolução CONSUNI Nº 17, de 18 de novembro de 2004”, cita a portaria publicada no dia 18 de dezembro de 2025.
Denúncias
Para o estudante, a penalidade aplicada representa o ápice de um processo de negligência institucional. Diagnosticado com transtorno bipolar tipo II, ele afirma que sua condição de saúde mental foi ignorada pela coordenação do curso, mesmo após comunicações formais.
“É extremamente curioso ver como um curso da área da saúde foi tão negligente e punitivo com a saúde mental fragilizada de um aluno”, escreveu em carta enviada à instituição.
Além disso, o acadêmico relata ter sido vítima de assédio sexual durante o internato, sem que providências efetivas fossem adotadas. Documentos de estágio mencionam falas de cunho sexual consideradas invasivas, proferidas durante procedimentos cirúrgicos. “Se ignoraram um aluno que sofreu um assédio sexual… O problema maior foi a questão da receita”, disse.
O ambiente no Hospital Regional, onde realizava o internato, também é descrito como hostil.
Disputa Judicial
Após a expulsão, o acadêmico ingressou com ação judicial na tentativa de reverter a decisão administrativa da UFMT. Ele confirma que está sendo representado por advogado e que busca, “de todas as formas possíveis”, a anulação da penalidade.
Apesar disso, demonstra ceticismo quanto à possibilidade de retorno à universidade. “Tenho poucas esperanças de ser readmitido pela UFMT. Tanto que prestei o Enem de novo e estou dando meus pulinhos em busca da formatura em alguma outra instituição”, afirmou.
Outro lado
A reportagem tentou contato com a UFMT de Sinop, mas não obteve resposta até a publicação da reportagem. O espaço permanece aberto para qualquer manifestação.