- CUIABÁ
- SEXTA-FEIRA, 27 , FEVEREIRO 2026
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, afirmou nesta quarta-feira (25) que o fim da escala de seis dias de trabalho por um de folga (6×1) pode resultar em aumento da produtividade da economia brasileira. A declaração foi feita durante entrevista ao programa Bom Dia, Ministro, do Canal Gov.
Defensor da redução da jornada de trabalho, Boulos citou experiências de empresas e países que adotaram modelos alternativos de escala e obtiveram resultados positivos. Segundo ele, um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), realizado em 2024 com 19 empresas que reduziram a carga horária, apontou aumento de receita em 72% delas e melhora no cumprimento de prazos em 44%.
“Essas empresas estão reduzindo a jornada mesmo sem legislação específica. Os dados mostram que trabalhadores mais descansados produzem melhor”, afirmou o ministro.
Boulos explicou que a lógica da escala 6×1 tende a gerar cansaço excessivo, o que impacta negativamente o desempenho profissional. Ele destacou ainda que, em muitos casos, o dia de folga acaba sendo utilizado para atividades domésticas e de cuidado, especialmente por mulheres, o que reduz o tempo efetivo de descanso.
Como exemplo internacional, o ministro citou a experiência da Microsoft no Japão, que adotou a jornada de quatro dias de trabalho por três de descanso e registrou aumento de 40% na produtividade individual. Também mencionou a Islândia, que reduziu a jornada semanal para 35 horas em 2023, resultando em crescimento econômico de 5% e aumento de 1,5% na produtividade do trabalho.
Nos Estados Unidos, segundo Boulos, houve uma redução média de 35 minutos na jornada diária nos últimos três anos, impulsionada pela dinâmica do mercado. “Mesmo sem uma lei específica, isso gerou um aumento médio de 2% na produtividade”, afirmou.
O ministro rebateu o argumento de que a baixa produtividade da economia brasileira seria um obstáculo à redução da jornada. Para ele, parte do problema está na falta de investimentos do setor privado em inovação e tecnologia.
“Quase todo o investimento em pesquisa e inovação no Brasil vem do setor público. O setor privado brasileiro é um dos que menos investe proporcionalmente quando comparado a países no mesmo nível de desenvolvimento”, criticou.
A proposta defendida pelo governo prevê a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, em um regime de até cinco dias de trabalho por dois de descanso. O plano inclui um período de transição e mecanismos de compensação para micro e pequenas empresas.
“Essa é uma proposta pensada para todos os setores da economia, por uma questão de dignidade dos trabalhadores”, disse Boulos, destacando que o governo mantém diálogo com o Congresso para viabilizar a votação do tema ainda neste semestre.
Atualmente, tramitam no Congresso diversas propostas sobre o tema. Entre elas, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 8/2025, protocolada em fevereiro do ano passado, que prevê jornada máxima de 36 horas semanais, distribuídas em quatro dias de trabalho.
Juros e impacto no setor produtivo
O projeto enfrenta resistência de setores empresariais, que alegam aumento de custos operacionais com a eventual necessidade de novas contratações. Boulos reconheceu a preocupação, mas afirmou que o impacto financeiro tem sido superdimensionado, sobretudo para pequenos negócios, que terão modelos específicos de adaptação.
O ministro também criticou o patamar elevado da taxa básica de juros no Brasil, que atualmente está em 15% ao ano. Segundo ele, os juros altos pressionam o setor produtivo e dificultam investimentos.
“Muitos pequenos negócios estão endividados por causa de uma taxa de juros abusiva. Com esse custo do dinheiro, fica impossível investir ou manter capital de giro”, afirmou.
Boulos defendeu a redução da Selic como forma de aliviar a pressão sobre empresas e trabalhadores. “Já passou da hora de reduzir essa taxa. Juros nesse nível não são sustentáveis nem para o trabalhador nem para o empresário”, concluiu.
A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) está marcada para os dias 27 e 28 de janeiro. Em comunicado recente, o Banco Central informou que o cenário de incerteza exige cautela e indicou a manutenção da Selic nesse patamar por período prolongado.