A trajetória do líder indígena Nahu Kuikuro foi registrada na biografia “Dono das palavras: a história do meu avô”, escrita por seu neto, Yamaluí Kuikuro Mehinaku. A obra resgata a importância de Nahu na defesa dos povos do Alto Xingu, em Mato Grosso, e destaca como o domínio da língua portuguesa foi decisivo para a proteção de sua comunidade.
Ainda na década de 1940, Nahu tornou-se o primeiro indígena da região a aprender português. Segundo o autor, a habilidade permitiu que ele atuasse como intermediador entre indígenas e não indígenas, evitando interferências externas e contribuindo para a preservação dos costumes tradicionais. O livro foi reconhecido, no ano passado, com o Prêmio da Biblioteca Nacional.
Ao longo da vida, Nahu consolidou-se como uma figura estratégica no Alto Xingu. Fluente em português e em diferentes línguas das 16 etnias da região, exerceu o papel de tradutor e articulador. Na cultura local, essa função lhe rendeu o título de “dono das palavras”.
Sua atuação também foi decisiva em momentos históricos. O líder participou de articulações para evitar invasões e teve influência no processo que resultou na criação do Parque Indígena do Xingu, oficializado em 1961. Pelo contato com o mundo exterior, tornou-se uma ponte de confiança para os irmãos Villas-Boas, indigenistas que atuaram na região.
Em entrevista à Agência Brasil, Yamaluí relatou que o aprendizado do português ocorreu de forma inesperada, ainda na juventude. Com o tempo, no entanto, Nahu percebeu o potencial da língua como instrumento de defesa. “Ele entendeu que dominar esse conhecimento era fundamental para proteger o território e o modo de vida do nosso povo”, afirmou.
Além da atuação política e diplomática, Nahu também era reconhecido como guardião de saberes tradicionais, incluindo cantos e conhecimentos culturais. Já idoso, incentivava as novas gerações a estudar e a registrar por escrito a tradição oral, como forma de preservar a memória coletiva.
Após a morte do avô, em 2005, aos 104 anos, Yamaluí decidiu reunir memórias e relatos em livro. Segundo ele, o registro também busca ampliar o reconhecimento da história indígena fora das aldeias. “Quando fica só na oralidade, muitos não acreditam. Registrando, damos visibilidade”, disse.
O autor também chama atenção para a ausência de referências indígenas nos conteúdos escolares da região e defende maior valorização das culturas dos povos originários. “Escrevi porque a história dele estava sendo deixada de lado. Era preciso contar”, destacou.
Nesta semana, Yamaluí participa, em Brasília, do Acampamento Terra Livre, evento que reúne milhares de indígenas de todo o país e promove, além de mobilizações por direitos, a troca de experiências culturais entre diferentes povos.
Para o escritor, a principal missão agora é manter viva a memória de Nahu Kuikuro e inspirar as novas gerações a seguir na defesa de seus territórios e tradições.