quarta-feira, 31 - dezembro 2025 - 09:35

Motorista de app baleado nega discussão com tenente em Cuiabá'; 'já desceu atirando'


Reprodução
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O motorista de aplicativo baleado na cabeça durante uma ocorrência de trânsito no bairro Goiabeiras, em Cuiabá, afirmou que não houve qualquer discussão ou tentativa de diálogo antes de ser alvo de uma sequência de disparos efetuados pelo tenente da Polícia Militar Rennan Albuquerque de Melo, de 34 anos, preso no último sábado (27) por tentativa de homicídio.

Em entrevista, a vítima relatou que o episódio teve início quando parou no semáforo para desembarque de um passageiro, ainda no sinal amarelo, o que teria provocado a irritação do condutor de um veículo Jetta, posteriormente identificado como o militar.

“Eu parei no sinal amarelo para o passageiro descer. Ele começou a buzinar, bateu na traseira do meu carro uma vez, depois bateu de novo com mais força”, relatou ao Cadeia Neles.

Segundo o motorista, após as colisões sucessivas, ele desceu do veículo apenas para entender o que estava acontecendo, mas o condutor do Jetta seguiu com manobras bruscas. A vítima então decidiu acompanhar o carro do tenente por alguns metros, momento em que a situação escalou de forma extrema.

Assim que virou a esquina, condutor por aplicativo foi surpreendido pelos disparos. “Assim que virei a esquina, ele já estava fora do carro. Entrou na frente do meu veículo e descarregou a pistola. Não teve diálogo, não teve briga, não teve discussão, não teve nada”, afirmou.

O motorista contou que foi atingido na cabeça e na perna, e que só não morreu porque conseguiu acelerar mesmo sem enxergar direito. “No segundo tiro, tudo escureceu. Eu me abaixei debaixo do volante e acelerei. Se eu tivesse batido em um muro ou ficado preso, ele teria me matado. Eu nasci de novo”, disse.

Ferido, ele conseguiu pedir ajuda e foi encaminhado ao Hospital Municipal de Cuiabá (HMC). A bala que atingiu a cabeça provocou uma lesão grave, que por pouco não foi fatal. “Se eu tivesse descido do carro para tentar conversar com ele, eu tenho certeza que ele iria me matar”, completou.

Histórico de violência

O tenente Rennan Albuquerque de Melo já responde a outros procedimentos administrativos e criminais por episódios de violência fora da atuação policial. Em 2021, a ex-mulher do militar registrou ocorrência relatando agressão com tapa no rosto e ameaças.

Em março de 2024, ele foi acusado de invadir a residência do cantor Lourival Valério, conhecido como “Carretel”, em ação com outros policiais descaracterizados. Imagens gravadas por familiares mostram agressões físicas contra testemunhas durante a suposta apuração de uma denúncia de tráfico.

Já em janeiro de 2025, câmeras de segurança registraram o tenente enforcando um adolescente de 15 anos dentro do condomínio onde mora, na região da avenida Antártica. Segundo o registro, ele teria exigido que o jovem apontasse quem havia riscado seu carro.

À época, a Polícia Militar informou que o policial foi afastado e passou a ser investigado pela Corregedoria-Geral. Em nota recente, a corporação confirmou que o tenente já responde a procedimento anterior, está submetido ao Conselho de Justificação, afastado das funções e com porte de arma suspenso desde janeiro de 2025.

Prisão e suspeita de falsa comunicação

Rennan Albuquerque foi preso no mesmo dia, em um condomínio na região do Ribeirão da Ponte, durante ação da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), com apoio da Corregedoria da PM e da Força Tática. Três celulares foram apreendidos.

De acordo com o delegado Caio Albuquerque, após o crime, a esposa do militar, proprietária do veículo Jetta, registrou um boletim de ocorrência informando o furto do carro. No entanto, imagens obtidas pela polícia mostram o próprio tenente dirigindo o veículo logo após a suposta comunicação do crime.

“Pelas imagens, fica evidenciado que não houve furto. Quem leva o veículo é o próprio dono, no caso, o militar”, afirmou o delegado.

Além da tentativa de homicídio, o tenente também passou a ser investigado por falsa comunicação de crime e possível adulteração de sinal identificador do veículo, após a informação de que o carro teria sido localizado sem placas.

O militar permanece preso e deverá passar por audiência de custódia nas próximas horas.

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