- CUIABÁ
- QUARTA-FEIRA, 18 , FEVEREIRO 2026
O número de pessoas vivendo em situação de rua em Mato Grosso registrou uma alta de 12% no último ano. Segundo dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua e do CadÚnico, o estado saltou de 3.603 registros em 2024 para 4.068 em 2025.
A capital, Cuiabá, é o epicentro desse cenário, abrigando 1.758 pessoas nessas condições — o que representa quase metade do total estadual.
Perfil e Causas: O Rosto da Invisibilidade
Para além das estatísticas, o crescimento revela um emaranhado de exclusão social, desemprego, dependência química e rupturas familiares. Um homem de 33 anos, que vive nas ruas desde 2017 após conflitos domésticos, relata que o retorno à sociedade é complexo. “Eu caí na rua por causa das drogas também. A gente consegue dinheiro quase todo dia, às vezes mais que um assalariado, mas vai tudo para o vício”, desabafa.
Em Cuiabá, o perfil desse grupo é majoritariamente masculino e negro:
91% são homens;
82% são pessoas negras;
58% não concluíram o ensino fundamental;
94% vivem sozinhos, sem contato com familiares.
O pesquisador Cristiano Silva, da UFMG, aponta que o racismo estrutural é um fator determinante. “A cada dez pessoas na rua, sete são negras. É um reflexo histórico do pós-abolição, que negou acesso a direitos básicos e gerou mazelas que perduram até hoje”, explica.
O Gargalo no Atendimento
A principal porta de entrada para assistência na capital é o Centro Pop, na Rua Comandante Costa, que oferece alimentação, higiene e suporte psicossocial. No entanto, o sistema enfrenta um deficit crítico de vagas.
Atualmente, Cuiabá dispõe de apenas 250 vagas distribuídas em três abrigos, volume insuficiente para a demanda. Segundo o gerente da unidade, Robson Aguiar, seriam necessárias pelo menos 500 vagas para operar com tranquilidade. Cleverson Leite de Almeida, diretor de políticas públicas para o setor, afirma que a prefeitura busca ampliar a capacidade dos prédios e parcerias com órgãos como a Limpurb para ofertar vagas de emprego.
Habitação como Saída
No campo habitacional, o programa Casa Cuiabana destinou 3% de suas unidades para pessoas que estão ou já passaram pela situação de rua. No primeiro sorteio de 500 imóveis, 25 pessoas se autodeclararam aptas à cota.
Para a secretária Michelle Dreher Alves (Habitação), o desafio agora é a validação documental junto ao conselho e à Caixa Econômica. Especialistas reforçam que a solução não pode ser isolada. “Não adianta apenas dar a casa; é preciso criar condições de saúde e renda para que a pessoa não retorne à rua”, conclui Cristiano Silva.