domingo, 17 - agosto 2025 - 12:54

Professores veem avanço da violência e relatam medo em sala


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Casos de violência em escolas de Mato Grosso têm ganhado grande destaque na imprensa nos últimos meses, com diversos episódios de agressões entre estudantes, tanto dentro quanto fora das unidades de ensino. O ataque a uma adolescente por colegas que imitavam uma facção criminosa, ocorrido no último dia 4 em Alto Araguaia, foi o caso de maior repercussão.

Entre outras situações alarmantes, destaca-se a tentativa de atear fogo em uma adolescente de 13 anos, em Várzea Grande, por intolerância religiosa, e o espancamento de um estudante de 15 anos dentro de um banheiro de escola em Cuiabá, por sete colegas. Para professores, esses episódios refletem a propagação da violência nas escolas.

A professora de Geografia Kely Carvalho, com experiência desde 2012, relata já ter presenciado diversas situações de violência, tanto contra estudantes quanto contra professores, que também são alvo de ameaças. Ela conta que já foi alertada por alunos sobre riscos que correu dentro da escola. “Já me disseram: ‘Fulano falou que não gosta da senhora e a gente sabe que ele é namorado de ciclano, que é…’ Não é aluno, não é trabalhador, não é uma pessoa honrada. E aí a gente para, reflete, ora e volta a trabalhar”, relata. Apesar disso, Kely destaca que nunca foi vítima de agressão física, mas viu colegas sofrerem ameaças e até agressões, como o caso de uma professora que foi puxada pelos cabelos por uma aluna, o que a fez deixar a escola.

Outra professora, que preferiu não se identificar, também relatou ter sido ameaçada e agredida verbalmente por uma aluna desde que começou a lecionar em escolas públicas, em 2018. “Foi muito alarmante. Ela chegou a gritar, fazer gritaria, a utilizar xingamentos para mim, foi bem complicado”, conta. Ela destaca que, nos últimos tempos, a violência entre os estudantes tem se estendido para fora das escolas, com grupos se formando para resolver disputas de forma agressiva em ruas e bairros.

Kely observa que muitos comportamentos violentos entre os alunos são influenciados pelo ambiente externo, como a convivência com pessoas envolvidas em atividades criminosas ou pela mídia. “Estão reproduzindo muitas coisas que vêm de fora. Por isso, nós, profissionais da educação, quando a violência chega ao nosso conhecimento, tentamos refletir e buscar a melhor forma de lidar com isso”, afirma a professora.

Ela acrescenta que, frequentemente, estudantes afirmam pertencer a facções ou grupos criminosos, mas nem sempre isso é verdade. “Eles usam o nome da facção porque está presente na redondeza onde moram. Às vezes nem estão envolvidos com facções, é mais um modismo. Eles falam que têm um grupo, mas é algo que viraliza”, diz.

Impactos na Educação

As professoras destacam que a violência não afeta apenas as vítimas diretas, mas compromete todo o ambiente educacional. “Infelizmente, muitos colegas ficam mais apagando incêndios para conseguir dar aula, o que atrapalha a qualidade do ensino”, afirma Kely. “Temos que ser mais habilidosos para lidar com alunos violentos do que, propriamente, ensinar o conteúdo. Isso dificulta o desenvolvimento das aulas e afasta os alunos da prática pedagógica”, completa a professora de linguagens.

O Tripé da Educação

Para Kely, a solução para evitar o aumento da violência nas escolas passa pela colaboração de três pilares: aluno, instituição e família. “O aluno precisa querer aprender, mas sua educação não depende apenas de seu esforço. A família e a instituição de ensino têm papel fundamental em criar um ambiente seguro e propício ao aprendizado”, ressalta.

Ambas as professoras afirmam que a participação da família é essencial, já que muitos dos problemas dos estudantes têm origem no ambiente familiar. Além disso, acreditam que as instituições públicas devem oferecer mais acolhimento e acompanhamento psicossocial, tanto para os alunos quanto para os professores, que também são afetados por esse cenário de violência.

Elas citam ainda a infraestrutura das escolas como um fator relevante para reduzir a violência. Exemplos como as escolas cívico-militares, que contam com mais funcionários de pátio e maior apoio aos professores, têm mostrado eficácia em reduzir o índice de violência em sala de aula.

O Direito à Educação e Apoio

Por fim, as professoras reforçam que os estudantes são jovens e têm o direito de receber educação e apoio para superar comportamentos violentos. “Às vezes, falta um diálogo, uma escuta e um acompanhamento adequados. São vários fatores que contribuem, mas a violência sempre acaba afetando a todos”, conclui a professora de linguagens.

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