- CUIABÁ
- SEXTA-FEIRA, 20 , MARÇO 2026
A reunião realizada nesta sexta-feira (20), na Câmara Municipal de Várzea Grande, que deveria trazer clareza sobre a atualização do Plano Municipal de Saneamento Básico (PMSB), acabou expondo um cenário oposto: dúvidas, críticas duras e desconfiança generalizada sobre a qualidade do estudo apresentado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). O encontro, que também integra a discussão sobre a concessão privada do Departamento de Água e Esgoto (DAE), uma das promessas de campanha da prefeita Flávia Moretti (PL), escancarou o desgaste político em torno do tema.
O pano de fundo de toda a discussão é a possível concessão dos serviços de água e esgoto, proposta defendida pela gestão municipal como caminho para atrair investimentos e cumprir as metas de universalização até 2033.
Contratada por mais de R$ 2 milhões, a Fipe apresentou um diagnóstico que, na avaliação de vereadores e lideranças, ficou muito aquém do esperado. A ausência física dos técnicos, que participaram de forma virtual, direto de São Paulo, agravou ainda mais o clima de insatisfação. A cobrança foi imediata: como justificar um contrato milionário sem sequer garantir a presença dos responsáveis pelo estudo em um debate considerado crucial para o futuro do saneamento na cidade? No plenário, a crítica foi direta à condução do processo e à superficialidade das informações apresentadas.
“Não tenho nada contra a empresa, mas é um contrato de mais de R$ 2 milhões. O mínimo que se espera é que esses técnicos estejam aqui presencialmente. Não por videoconferência. Isso é o mínimo uma falta de respeito com esta Casa e com a população”, disparou o vereador Alessandro Moreira (MDB).
A vereadora Gisa Barros (PSB) subiu a tribuna várias vezes para fazer apontamentos. Sem rodeios, ela classificou a apresentação como insuficiente e criticou a falta de organização e profundidade do material. “Nós pagarmos mais de dois milhões, não é barato. E aí vem aqui com o estudo, desculpa o termo, meia boca”, disparou. Em outro momento, reforçou a insatisfação: “Essa explanação feita aqui está muito aquém do que todos aqui esperavam”. Para ela, a forma como o conteúdo foi exposto, condensando centenas de páginas em poucos slides, comprometeu a compreensão e a transparência do processo.
As críticas não se limitaram ao formato da apresentação. Vereadores também questionaram a ausência de dados considerados básicos para qualquer diagnóstico consistente. Informações como a real situação financeira do DAE, número de inadimplentes, eficiência da arrecadação e detalhamento das perdas de água simplesmente não foram apresentadas de forma clara. Embora o estudo aponte que 97,6% das residências possuem acesso à rede, não há precisão sobre quantas, de fato, recebem água regularmente, um ponto sensível em uma cidade marcada pela intermitência no abastecimento.
Outro dado que chamou atenção foi o índice de perdas na rede, estimado em cerca de 60%. No entanto, novamente, sem detalhamento. Não há distinção entre vazamentos estruturais, ligações clandestinas ou problemas operacionais. Para os parlamentares, isso compromete qualquer tentativa de planejamento. “Isso é o básico que tinha que ter num diagnóstico pra você se chegar num prognóstico”, criticou Gisa, ao defender a necessidade de informações mais robustas antes de qualquer decisão.
Gisa também levantou questionamentos técnicos relevantes, especialmente sobre lacunas no diagnóstico. “Como que se separa saneamento básico de resíduo sólido? Eu não estou entendendo isso”, criticou, ao apontar inconsistências metodológicas. A parlamentar ainda demonstrou preocupação com o avanço de um modelo de concessão sem base sólida, fazendo um paralelo com serviços já criticados pela população: “Nós vamos aderir mais uma concessão, que pode ser outra vergonha”.
“Era para trazer um estudo com certeza. É para trazer uma garantia porque são mais de R$ 2 milhões de reais. Até mesmo porque é dinheiro público, dinheiro nosso. Tem muitas pessoas que não tomaram banho, não escovaram o dente por falta de água”, disse o vereador Wender Madureira (Republicanos) ao questionar se o estudo foi elaborado em conjunto com o DAE.
A própria condução das discussões também foi alvo de críticas. Vereadores alegaram que as audições públicas realizadas em dezembro ocorreram em um período inadequado, com excesso de demandas legislativas, o que teria prejudicado a participação. Ainda assim, cobraram novas rodadas de debate, desta vez com maior profundidade e organização. A principal preocupação é evitar decisões precipitadas sobre um tema que impacta diretamente o bolso da população.
Do outro lado, a secretária de Assuntos Estratégicos, Ina de Maria, reconheceu as limitações da apresentação, mas atribuiu parte da responsabilidade à falta de discussões anteriores por parte dos vereadores. “É muito difícil entender quase 500 páginas em um slide”, admitiu, ao afirmar que a equipe está aberta a realizar novas exposições mais detalhadas. Ainda assim, a justificativa não foi suficiente para conter o desgaste gerado durante a reunião.
Ao final, ficou definido que o estudo deverá ser revisado e aprofundado antes de outras deliberações, especialmente no âmbito do Conselho da Cidade (Concidade).
Veja o vídeo: