segunda-feira, 6 - abril 2026 - 18:21



SAÚDE MENTAL NO TRABALHO

Impactos da escala 6×1 no cotidiano em Mato Grosso


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A rotina de trabalho na escala 6×1 — modelo em que o trabalhador atua seis dias e descansa apenas um —, comum em setores como comércio, serviços e indústria, tem sido apontada por especialistas como um dos principais fatores de impacto na saúde mental dos trabalhadores. Dados do Instituto Nacional do Seguro Social indicam que os afastamentos por transtornos mentais cresceram de forma expressiva nos últimos anos. Paralelamente, o setor produtivo já projeta impactos bilionários em caso de mudança na jornada.

Na prática, essa realidade já é vivida por trabalhadores em Cuiabá. A produtora Camila Dalmolin Santos, de 30 anos, que atua na escala 6×1, relata que a rotina limita até atividades básicas do dia a dia.

“A gente passa mais tempo trabalhando do que em casa. E, quando chega, ainda há tarefas pendentes”, afirma. Segundo ela, o pouco tempo livre acaba consumido pelo cansaço. “Muitas vezes, só dá tempo de jantar e dormir para recomeçar no dia seguinte.”

Camila conta que já vivenciou uma rotina mais flexível, próxima da escala 4×3, e percebeu mudanças significativas. “O impacto foi enorme. Consegui equilibrar melhor a vida pessoal e o trabalho”, relata.

Dados recentes mostram o avanço dos afastamentos: em 2023, foram concedidos 219.850 benefícios; em 2024, o número saltou para 367.909 e, até novembro de 2025, já ultrapassava 390 mil. O aumento superior a 70% em relação a 2023 acende um alerta entre especialistas, que associam o crescimento a jornadas extensas e à sobrecarga de trabalho.


Jornada extensa e adoecimento

Para a psicóloga clínica Jéssica Costa, a relação entre a escala 6×1 e o adoecimento mental é direta. Segundo ela, o modelo contribui para um estado contínuo de exaustão, que pode evoluir para quadros mais graves.

“Essa rotina reduz o convívio social e mantém o trabalhador em constante desgaste. O estresse crônico pode desencadear ansiedade, depressão e outros transtornos”, explica.

O impacto, segundo a especialista, é ainda mais intenso entre trabalhadores de baixa renda, que muitas vezes precisam acumular empregos, reduzindo ainda mais o tempo de descanso.

Esse cenário cria um ciclo de desgaste contínuo: pouco tempo livre, múltiplas jornadas e ausência de lazer ou convivência social.


Principais sintomas

Entre os problemas mais comuns associados à rotina estão ansiedade, depressão e a síndrome de Burnout. O psicólogo organizacional Pedro Cruz destaca que os sinais aparecem tanto no comportamento quanto no desempenho profissional.

“O trabalhador tende a se isolar, perde qualidade nas relações e apresenta queda de produtividade. Isso está ligado à carga horária, à pressão por resultados e ao acúmulo de tarefas”, afirma.

Além dos sintomas emocionais, Jéssica ressalta que o adoecimento também pode se manifestar fisicamente, com dores de cabeça, problemas gastrointestinais, respiratórios e até cardiovasculares.


Falta de tempo e sobrecarga

A principal queixa entre trabalhadores submetidos à escala 6×1 é a falta de tempo — para descansar, conviver com a família e cuidar da própria saúde.

“Um único dia de folga não é suficiente para atender todas as necessidades de descanso, lazer e convivência”, afirma a psicóloga.

A situação é ainda mais complexa para as mulheres, que frequentemente acumulam o trabalho formal com responsabilidades domésticas e cuidado de familiares.

“Muitas enfrentam dupla ou tripla jornada, o que aumenta significativamente o risco de adoecimento”, acrescenta.


Possíveis benefícios da mudança

Especialistas avaliam que a adoção de jornadas menos exaustivas pode trazer ganhos relevantes tanto para trabalhadores quanto para empresas. Entre os principais benefícios estão a redução do estresse crônico, melhora da saúde mental e fortalecimento das relações familiares.

“Uma rotina mais equilibrada pode reduzir casos de ansiedade e depressão, além de diminuir conflitos familiares e até episódios de violência doméstica”, aponta Jéssica.

Pedro Cruz destaca que a melhora na qualidade de vida também se reflete na produtividade. “Funcionários mais saudáveis tendem a ter melhor desempenho”, afirma.


Novas exigências e mercado de trabalho

A discussão também tem avançado dentro das empresas, impulsionada por mudanças legais. A Portaria nº 1.419/2024 atualizou a NR-01, reforçando a obrigatoriedade de considerar riscos psicossociais no ambiente de trabalho, como estresse, sobrecarga e organização da jornada.

Segundo especialistas, já é possível observar mudanças no comportamento do mercado, especialmente entre os mais jovens.

“Hoje há maior dificuldade de preencher vagas com escala 6×1, porque muitos profissionais priorizam qualidade de vida e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal”, explica Pedro Cruz.


Sindicatos defendem redução

A redução da jornada é uma pauta histórica de entidades sindicais. Em Mato Grosso, o presidente da Central Única dos Trabalhadores, Henrique Lopes, afirma que o fim da escala 6×1 representa um avanço na qualidade de vida.

Segundo ele, a proposta em discussão no país — que prevê a redução de 44 para 40 horas semanais sem corte salarial — já é positiva, mas o ideal seria uma jornada de 36 horas semanais.

“O trabalhador passaria a ter mais tempo para cuidar da saúde, da família e da vida pessoal”, afirma.


Debate no Congresso

No campo político, o tema ganhou força nos últimos meses. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva encaminhou ao Congresso um projeto em regime de urgência para extinguir a escala 6×1 e reduzir a jornada semanal de trabalho.

O modelo prevê a diminuição de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial. A tramitação em regime de urgência obriga a análise em até 45 dias, sob risco de travar a pauta legislativa.

Além disso, propostas parlamentares também tratam do tema, como a apresentada pela deputada Erika Hilton, que defende mudanças na jornada de trabalho.

A proposta busca ampliar o tempo de descanso, fortalecer o convívio familiar e reduzir os impactos da sobrecarga na saúde mental dos trabalhadores.


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