- CUIABÁ
- QUINTA-FEIRA, 16 , JULHO 2026
A Polícia Civil identificou como Rhavenna Barcelos de Almeida, designer de sobrancelhas e filha de um casal de pastores, a mulher presa preventivamente durante a Operação Fariseus, deflagrada na manhã desta quinta-feira (16). A ação investiga um grupo familiar suspeito de utilizar um projeto de assistência religiosa para prestar apoio comunicacional, financeiro e logístico a integrantes da facção criminosa Comando Vermelho (CV), inclusive lideranças presas e foragidas.
A prisão preventiva de Rhavenna foi cumprida por equipes da Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO) e da Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Draco). Além dela, seus pais, os pastores Nivaldo de Almeida e Orminda Carlos de Barcelos Almeida, foram alvos de mandados de busca e apreensão. Durante as diligências, os policiais apreenderam dinheiro em posse da investigada, além de dispositivos eletrônicos que serão periciados.
Segundo a Polícia Civil, as investigações revelaram que a família utilizava o projeto religioso Resgatando Vidas para ingressar em unidades prisionais sob a justificativa de prestar assistência espiritual. No entanto, conforme os elementos reunidos pela investigação, a atividade teria sido desvirtuada para facilitar o contato entre integrantes da facção, intermediar mensagens, manter comunicação com presos e foragidos e movimentar recursos financeiros ligados à organização criminosa.
Fotos com líder do CV e armas chamam atenção
Imagens e vídeos obtidos durante a investigação mostram Rhavenna ao lado de Jonas Souza Garcia Júnior, conhecido como “Batman”, apontado como uma das principais lideranças do Comando Vermelho em Mato Grosso. Ele possui pena unificada superior a 49 anos de prisão e está foragido desde 2024, quando rompeu a tornozeleira eletrônica poucos dias após conseguir progressão de regime.
Conforme a investigação, Rhavenna mantinha um relacionamento amoroso com o criminoso. A Polícia Civil afirma ainda que ela aparece em registros fotográficos ostentando armas de fogo personalizadas com símbolos da facção criminosa e, em um dos episódios investigados, chegou a solicitar que um homem recebesse um “salve” do Comando Vermelho após ter sua residência invadida.
Os investigadores também encontraram imagens em que os pais da jovem aparecem ao lado de integrantes da organização criminosa, inclusive segurando armamentos de grosso calibre.
Viagens ao Rio e convivência com criminosos
Outro ponto considerado relevante pela investigação são as frequentes viagens realizadas pelos investigados ao Rio de Janeiro. Segundo a Polícia Civil, integrantes da família estiveram em comunidades dominadas pelo Comando Vermelho, onde foram fotografados dentro da residência utilizada por um criminoso foragido.
As imagens mostram investigados ao lado de homens armados com fuzis, pistolas, revólveres, carabinas e rádios comunicadores, alguns personalizados com referências à facção. Também foram encontrados registros de crianças portando armamentos e dos próprios investigados manipulando armas de fogo.
As investigações ainda identificaram diversas videochamadas entre integrantes do projeto religioso e lideranças da facção. Em um dos registros, um criminoso foragido conversa por chamada de vídeo enquanto um comparsa realiza disparos de fuzil em uma comunidade controlada pela organização.
Esquema financeiro e lavagem de dinheiro
A Polícia Civil também aponta indícios de que o grupo recebia dinheiro de presos e lideranças da facção utilizando contas bancárias de familiares e terceiros para ocultar a origem dos recursos.
Segundo a investigação, eram realizados depósitos fracionados, triangulações financeiras e sucessivos repasses para dificultar o rastreamento do dinheiro. Há ainda suspeitas de que recursos ilícitos tenham sido utilizados para custear viagens, procedimentos estéticos e aquisição de veículos em benefício de integrantes do grupo, caracterizando, em tese, lavagem de dinheiro.
Entrega de celulares ainda não foi comprovada
As diligências começaram após uma denúncia anônima informar que integrantes da família utilizavam o projeto religioso para entrar na Penitenciária Central do Estado (PCE) e, supostamente, entregar celulares, carregadores e outros objetos proibidos a detentos do raio de segurança máxima.
Embora essa suspeita específica ainda não tenha sido comprovada, a análise de celulares, conversas telefônicas, registros bancários e arquivos digitais revelou, segundo a Polícia Civil, um amplo conjunto de provas indicando que a atuação dos investigados ultrapassava a assistência religiosa.
Os investigadores identificaram conversas frequentes com presos e foragidos, intermediação de recados entre internos e pessoas em liberdade, contatos diretos com conselheiros da facção e circulação de informações relacionadas ao ambiente prisional.
Operação Fariseus
A Operação Fariseus cumpriu um mandado de prisão preventiva, mandados de busca e apreensão, além de medidas cautelares como quebra dos sigilos telefônico, telemático e bancário dos investigados. A Justiça também determinou a suspensão temporária do ingresso dos envolvidos em unidades prisionais por meio de projetos religiosos.
Os investigados respondem, em tese, pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção de menor e tortura.
A Polícia Civil ressalta que o grau de participação de cada investigado ainda está sendo individualizado e que as investigações prosseguem para identificar outros possíveis envolvidos e esclarecer toda a extensão do esquema criminoso.