terça-feira, 15 - setembro 2026 - 07:57



TRATAMENTO

Aos 94 anos, Cacique Raoni enfrenta câncer e segue em cuidados paliativos em MT


Allan Mesquita / Da Redação
Cacique Raoni
Cacique Raoni

O Cacique Raoni Metuktire, de 94 anos, uma das principais lideranças indígenas do Brasil e referência internacional na defesa dos povos originários, dos territórios e da floresta, enfrenta um câncer do aparelho digestório e segue recebendo cuidados paliativos em sua residência, em Peixoto de Azevedo, no norte de Mato Grosso.

Ao longo de 2026, Raoni passou por uma série de complicações de saúde. O quadro começou com dores abdominais persistentes e levou a internações em Peixoto de Azevedo e Sinop, onde exames identificaram uma alteração na região infra-hepática, sugestiva de um processo expansivo intestinal ou hepático em estágio avançado.

Naquele momento, considerando a idade do Cacique, seu estado geral e outras condições clínicas, a equipe médica optou por uma abordagem cuidadosa, voltada ao controle dos sintomas e acompanhamento da evolução da doença.

Raoni já apresentava problemas de saúde relevantes, entre eles doença pulmonar obstrutiva crônica, associada ao histórico de tabagismo, hérnia diafragmática decorrente de um antigo trauma torácico, hipertensão arterial, insuficiência cardíaca e bloqueio atrioventricular, condição que exigiu o uso de marcapasso.

Primeiros sinais de agravamento

Em 13 de junho, enquanto estava em casa, o estado de saúde do Cacique voltou a se agravar. Ele apresentou episódios de vômitos intensos e precisou de atendimento emergencial.

No dia seguinte, foi transferido novamente para o Hospital e Maternidade Dois Pinheiros, em Sinop. Os exames identificaram uma obstrução intestinal na altura do duodeno, provocada pelo tumor, que impedia a passagem do conteúdo gástrico.

A lesão foi confirmada por endoscopia digestiva alta. Na ocasião, não foi realizada biópsia devido às condições clínicas de Raoni e ao risco de sangramento.

Além da obstrução, ele apresentou desidratação, alterações renais, infecção e pneumonia aspirativa. Diante da gravidade, as equipes médicas avaliaram a necessidade de transferência para um centro especializado.

Transferência para São Paulo

Depois de uma avaliação conjunta entre profissionais do Hospital Dois Pinheiros e da equipe de Gastrocirurgia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), foi indicada uma cirurgia para aliviar a obstrução.

No dia 19 de junho, Raoni foi transferido de Sinop para São Paulo em uma aeronave disponibilizada pelo Governo de Mato Grosso. Durante o transporte, foi acompanhado por familiares, médico intensivista e enfermeiro.

No Hospital São Paulo, passou a ser acompanhado por especialistas da Unifesp, entre eles o cirurgião Franz Robert Apodaca Torrez e o médico Douglas Rodrigues, do Ambulatório de Saúde dos Povos Indígenas, que acompanha Raoni há décadas.

Cirurgia confirma câncer

No dia 20 de junho, o Cacique foi submetido a uma gastroenteroanastomose por videolaparoscopia. O procedimento criou uma nova passagem no sistema digestivo para permitir que os alimentos contornassem a região bloqueada pelo tumor.

A cirurgia não teve como objetivo retirar o câncer, mas aliviar a obstrução e melhorar as condições de alimentação e conforto.

Posteriormente, o exame anatomopatológico confirmou um adenocarcinoma pouco diferenciado, um tipo de câncer de comportamento agressivo.

Diante da localização e do tamanho da doença, da idade avançada de Raoni e de suas demais condições clínicas, tratamentos com intenção curativa, como uma cirurgia de grande porte ou terapias oncológicas, foram considerados de alto risco.

Início dos cuidados paliativos

A partir dessa avaliação, o tratamento passou a ter como prioridade os cuidados paliativos.

Isso não significa abandono ou falta de tratamento. O objetivo é controlar dores e outros sintomas, reduzir desconfortos, oferecer suporte médico e de enfermagem e preservar, dentro do possível, a qualidade de vida.

No caso de Raoni, também foi considerada a importância de permanecer próximo da família, de seu povo e de suas referências culturais e espirituais.

Retorno para Mato Grosso

Após receber alta do Hospital São Paulo em 14 de julho, o Cacique retornou para Peixoto de Azevedo no dia seguinte, em uma aeronave disponibilizada pelo Ministério dos Povos Indígenas.

Em casa, foi estruturada uma equipe para garantir assistência contínua, com quatro técnicos de enfermagem, uma fisioterapeuta, apoio de nutricionista e supervisão de enfermagem da CASAI de Peixoto de Azevedo, vinculada ao Distrito Sanitário Especial Indígena Kaiapó de Mato Grosso.

O Ambulatório de Saúde dos Povos Indígenas da Unifesp também passou a oferecer suporte por telessaúde, enquanto equipes de saúde de Peixoto de Azevedo e Sinop permaneceram informadas sobre o quadro.

Nova internação e hemorragia digestiva

No fim de julho, Raoni enfrentou outra complicação. Entre os dias 30 de julho e 1º de agosto, sofreu uma hemorragia digestiva alta, provocando uma queda importante do hematócrito.

Ele precisou ser internado novamente no Hospital Regional de Peixoto de Azevedo. O sangramento foi tratado com medicamentos, medidas clínicas e transfusões de sangue.

Após o atendimento, não foram identificados novos sinais de sangramento ativo por mais de 72 horas, e o quadro voltou a ser considerado regular e estável.

Durante a internação, Raoni continuou recebendo suporte médico, nutricional, fisioterapêutico e de enfermagem.

Cuidados espirituais

Paralelamente ao acompanhamento médico, Raoni também recebe cuidados espirituais de pajés de sua confiança.

Como pajé, ele mantém uma relação profunda com os conhecimentos e tradições espirituais de seu povo. Para a família e pessoas próximas, essa dimensão faz parte do enfrentamento da doença e acompanha a assistência médica.

Raoni permanece em casa em Peixoto de Azevedo, cercado pela família e recebendo cuidados paliativos.

A prioridade das equipes é garantir conforto, controle dos sintomas, acompanhamento permanente e qualidade de vida, respeitando também suas escolhas, sua família e suas referências culturais e espirituais.


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