A diretoria colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) analisa nesta semana uma proposta de instrução normativa que estabelece novos procedimentos e requisitos técnicos para medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1, conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”.
O debate ocorre em meio à crescente popularização desses medicamentos, que incluem substâncias como semaglutida, tirzepatida e liraglutida. O aumento da demanda também tem sido acompanhado por uso indiscriminado e expansão do mercado ilegal, já que esses produtos só podem ser vendidos com prescrição médica.
Diante dos riscos à saúde, a Anvisa tem intensificado ações de fiscalização para coibir a comercialização irregular, incluindo versões manipuladas sem autorização. A agência também estruturou grupos de trabalho para reforçar o controle sanitário e ampliar a segurança dos pacientes.
Recentemente, Anvisa, Conselho Federal de Medicina (CFM), Conselho Federal de Odontologia (CFO) e Conselho Federal de Farmácia (CFF) firmaram uma carta de intenção para promover o uso racional e seguro desses medicamentos. A iniciativa prevê cooperação técnica, troca de informações e ações educativas voltadas à população.
Segundo a Anvisa, o objetivo é prevenir riscos sanitários associados a práticas irregulares e reforçar a proteção à saúde pública.
Especialistas destacam impacto e riscos
Em avaliação técnica, especialistas apontam que as canetas emagrecedoras representam um avanço importante no tratamento da obesidade e do diabetes, mas alertam para os riscos do uso sem orientação médica.
Os medicamentos atuam em diferentes mecanismos do organismo, auxiliando no controle da glicose, aumentando a sensação de saciedade e reduzindo o apetite. Com isso, contribuem para perda de peso e melhora de indicadores metabólicos, incluindo redução do risco cardiovascular.
Estudos indicam perdas médias de peso que variam de 15% a mais de 20%, dependendo do princípio ativo, da dose e do acompanhamento médico.
No entanto, o uso inadequado preocupa autoridades sanitárias. Dados recentes apontam crescimento expressivo na importação de insumos farmacêuticos para manipulação desses medicamentos, além de apreensões de produtos irregulares em circulação no país.
O levantamento citado pela Anvisa indica que, em apenas um semestre, foram importados insumos suficientes para cerca de 20 milhões de doses, além de mais de um milhão de apreensões relacionadas a irregularidades.
Risco sanitário e mercado ilegal
O uso fora das condições recomendadas pode aumentar o risco de efeitos adversos, especialmente quando os produtos não possuem procedência ou armazenamento adequados. Entre os efeitos mais comuns estão náuseas, vômitos e desconfortos gastrointestinais.
Há também registros de complicações mais graves, como pancreatite, condição associada a fatores como alteração no esvaziamento gástrico e formação de cálculos na vesícula biliar.
Diante desse cenário, entidades médicas defendem maior rigor regulatório e alertam para o crescimento do mercado paralelo, que tem impulsionado o consumo sem controle adequado.
Uso responsável e segurança do paciente
Especialistas reforçam a importância de quatro pilares para o uso seguro desses medicamentos: aquisição apenas de produtos regularizados, prescrição e acompanhamento médico, compra em estabelecimentos autorizados e respeito rigoroso às doses indicadas.
O acompanhamento profissional é considerado essencial para reduzir riscos e garantir a eficácia do tratamento.
Autoridades sanitárias destacam ainda que a presença ou ausência de efeitos colaterais não deve ser interpretada como falha do medicamento, mas sim como parte da resposta individual de cada paciente.
A Anvisa deve seguir com a análise da proposta normativa ao longo da semana, em meio a debates sobre segurança, regulação e combate ao uso irregular das chamadas canetas emagrecedoras.