- CUIABÁ
- TERÇA-FEIRA, 28 , JULHO 2026
A Justiça de Mato Grosso condenou um policial penal e outras cinco pessoas por participação em um esquema criminoso que promovia a entrada de drogas, celulares e outros materiais ilícitos no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Pontes e Lacerda, a 444 quilômetros de Cuiabá. A sentença foi assinada neste domingo (26) pela juíza Djéssica Giseli Küntzer, da 3ª Vara da comarca.
De acordo com a decisão, o grupo atuava de forma organizada para abastecer detentos com entorpecentes e aparelhos eletrônicos, contando com a participação direta de um servidor da unidade prisional.
Entre os condenados está o policial penal Flávio Zanatta, além de Karen Carolina Marques da Silva, Igor da Silva de Carvalho, Rian Rodrigues de Souza Silva, Mateus Marangoni Silva e Rafael Maciel Ferreira Júnior.
Investigação começou após apreensão de droga
As investigações tiveram início em maio de 2024, depois que policiais penais identificaram irregularidades durante a entrada de um colchão destinado a um detento da unidade prisional.
O objeto foi submetido a uma inspeção por raio-X, que revelou um compartimento oculto contendo 422 gramas de maconha escondidas entre a espuma.
Segundo a denúncia do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), o colchão foi adquirido por Karen Carolina Marques da Silva e permaneceu inicialmente em sua residência. Posteriormente, o material foi entregue a terceiros, retornou ao imóvel e, em seguida, foi encaminhado ao presídio por um motorista de aplicativo.
Embora o destinatário informado fosse o preso Rian Rodrigues de Souza Silva, a investigação concluiu que o verdadeiro receptor da droga seria Igor da Silva de Carvalho. Conforme o processo, Rian teria apenas emprestado seu nome para dificultar a identificação dos envolvidos.
As apurações também apontaram a participação de Rafael Maciel Ferreira Júnior e Mateus Marangoni Silva na logística para introdução do entorpecente e na distribuição da droga dentro da unidade. Em troca da utilização de seu nome na remessa, Rian receberia parte da maconha.
Servidor facilitava entrada de ilícitos
Durante a instrução processual, testemunhas e detentos relataram que o policial penal Flávio Zanatta utilizava o cargo para facilitar a entrada de drogas e celulares no presídio.
Segundo os depoimentos aceitos pela Justiça, o servidor cobrava cerca de R$ 5 mil para introduzir entorpecentes e aparelhos eletrônicos na unidade. Além disso, comercializava a senha da rede Wi-Fi do presídio por aproximadamente R$ 1 mil e utilizava locais sem monitoramento por câmeras para deixar os materiais, que posteriormente eram recolhidos por presos responsáveis pela distribuição.
A sentença também aponta que o policial penal tentou interferir nas investigações. Conforme o processo, ele teria oferecido R$ 10 mil a um detento para que alterasse seu depoimento e atribuísse a responsabilidade pelos crimes a outros servidores da unidade.
Diante da recusa, o condenado passou a ameaçar a testemunha de morte e incentivou outros presos a intimidá-la, conduta que também foi reconhecida pela magistrada durante o julgamento.
Condenações
Na decisão, a juíza destacou que o conjunto de provas reunido durante o processo — composto por laudos periciais, documentos, apreensões e depoimentos prestados em juízo — demonstrou a existência do esquema criminoso e a participação dos seis acusados.
Segundo a magistrada, os relatos das testemunhas apresentaram coerência e foram corroborados por outras provas produzidas ao longo da investigação, confirmando a versão apresentada pelo Ministério Público.
Flávio Zanatta foi condenado pelos crimes de tráfico de drogas, associação criminosa, corrupção passiva, facilitação da entrada de aparelhos celulares em estabelecimento prisional, violação de sigilo funcional, omissão no dever de impedir o acesso de presos a celulares e coação no curso do processo.
Os demais réus receberam condenações conforme o grau de participação de cada um, pelos crimes de tráfico de drogas, associação criminosa e, em alguns casos, também por coação no curso do processo.
A sentença foi proferida neste domingo (26) e ainda pode ser contestada por meio de recurso.