- CUIABÁ
- QUINTA-FEIRA, 16 , JULHO 2026
A morte do advogado Renato Nery, assassinado a tiros em julho de 2024, deixou marcas que ultrapassaram o momento da execução. Após o crime, familiares passaram a conviver com medo e insegurança diante da possibilidade de também se tornarem alvos dos responsáveis pelo homicídio.
O relato foi feito pela filha da vítima, Lívia Nery, nesta quarta-feira (15), durante o julgamento de Alex Roberto de Queiroz, apontado pelo Ministério Público como o executor do assassinato. Ele é o primeiro dos seis denunciados pelo homicídio a ser levado ao Tribunal do Júri.
Em depoimento como testemunha de acusação, Lívia afirmou que a família viveu dias de tensão logo após o atentado. Segundo ela, enquanto Renato recebia atendimento médico no hospital, pessoas próximas alertaram que todos deveriam mudar a rotina por questões de segurança.
“Achávamos que iam nos matar. A gente não sabia o que ia acontecer”, declarou.
A filha contou que familiares foram orientados a adotar medidas de proteção, incluindo o uso de veículo blindado. “Pegaram a chave do carro e disseram que a gente não podia mais andar em carro comum, que precisava usar carro blindado”, relembrou.
Segundo Lívia, apesar de o pai ter uma longa trajetória profissional envolvendo processos relacionados a disputas fundiárias, a família nunca imaginou que sua atuação pudesse resultar em uma ameaça direta.
“Ainda no hospital, todo mundo dizia que isso devia estar relacionado às causas agrárias do meu pai”, afirmou.
Ela explicou que Renato Nery já havia reduzido o ritmo de trabalho e pretendia encerrar gradualmente a carreira, mantendo apenas processos antigos que já estavam sob sua responsabilidade.
Durante o depoimento, Lívia também relembrou a dinâmica do ataque e classificou o crime como uma execução planejada. “Meu pai nem viu. Foi um assassinato a sangue frio. Simplesmente atiraram e ele caiu. Foi tão frio que você nem entende o que está acontecendo”, disse.
Renato Nery foi baleado em frente ao escritório onde trabalhava, localizado na Avenida Fernando Corrêa da Costa, em Cuiabá. Ele chegou a ser socorrido e permaneceu internado no Hospital Jardim Cuiabá, mas não resistiu aos ferimentos. A morte foi confirmada na manhã de 6 de julho de 2024.
O sentimento de insegurança, segundo a família, permaneceu durante o velório do advogado. Lívia afirmou que a cerimônia contou com presença policial para garantir a proteção dos familiares.
“A polícia estava lá para nos dar segurança, mas aquilo mostrava o quanto estávamos inseguros. A gente não sabia se poderiam atentar contra nós também. Havia inúmeras conjecturas”, relatou.
De acordo com a denúncia apresentada pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), o assassinato de Renato Nery teria sido motivado por uma disputa judicial envolvendo uma propriedade rural localizada em Novo São Joaquim, a 448 quilômetros de Cuiabá.
Conforme a acusação, a atuação do advogado no processo teria contrariado interesses econômicos dos supostos mandantes, que teriam planejado a execução mediante pagamento.
Segundo as investigações da Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Alex Roberto de Queiroz teria aguardado a chegada de Renato ao escritório e efetuado os disparos no momento em que a vítima desembarcava do veículo. Após o crime, ele fugiu em uma motocicleta.
A ação foi registrada por câmeras de segurança, imagens que passaram a integrar o conjunto de provas reunidas durante a investigação.
Ainda conforme o Ministério Público, o executor teria sido recrutado pelo policial militar da Rotam Heron Teixeira Pena Vieira, apontado como um dos intermediários da ação criminosa.
A denúncia sustenta que o casal Julinere Goulart Bastos e César Jorge Sechi teria sido responsável por determinar a morte do advogado após uma derrota judicial que teria causado prejuízos financeiros relacionados à disputa pela propriedade rural.
Para executar o plano, os investigadores apontam que os envolvidos teriam contado com a participação dos policiais militares Jackson Pereira Barbosa, Ícaro Nathan Santos Ferreira e Heron Teixeira Pena Vieira, que seriam responsáveis pela organização do crime, contratação do executor e fornecimento de recursos para a execução.
Julinere, César e os três policiais militares permanecem presos preventivamente e também serão submetidos ao Tribunal do Júri por homicídio qualificado.