quarta-feira, 21 - outubro 2026 - 08:46



CATHEDRA VENALIS

Vídeo - Drone do Gaeco flagrou vereadores ‘luxando’ em VG


Allan Mesquita / Da Redação

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) utilizou drones para monitorar vereadores de Várzea Grande durante uma reunião em uma chácara no Distrito da Guia, em Cuiabá, às vésperas da eleição para a presidência da Câmara Municipal, realizada em maio deste ano. As imagens aéreas mostram parlamentares espalhados pelo terreno, veículos estacionados e grupos de pessoas circulando pela propriedade. Em uma das fotografias, o vereador Braz Jaciro (PSDB), atualmente investigado, aparece sentado sob árvores, com as pernas cruzadas.

O monitoramento integra as diligências relacionadas à Operação Cathedra Venalis, deflagrada nesta terça-feira (20), para apurar suspeitas de corrupção e possíveis negociações de vantagens indevidas relacionadas à eleição da Mesa Diretora do Legislativo municipal.

Ao todo, são cumpridos 30 mandados de busca e apreensão domiciliar, pessoal e veicular em Cuiabá, Várzea Grande e Chapada dos Guimarães. Mais de 200 policiais participam da operação, que busca recolher documentos e outros elementos capazes de esclarecer como funcionaria a suposta articulação e qual teria sido a participação individual de cada investigado.

A lista de investigados inclui o presidente da Câmara, Wanderley Cerqueira (MDB), além dos vereadores Alessandro Moreira (MDB), Wender Madureira (Republicanos), Sargento Galibert (PSB), Lucélia Oliveira (Agir), Kleberton Feitoza (PSB), Raul Curvo (Republicanos), Enfermeiro Emerson (PP), Cilsinho (PV), Braz Jaciro (PSDB), Gisa Barros (Podemos) e Dr. Miguel (Cidadania). Os 12 parlamentares votaram pela reeleição de Wanderley para o comando do Legislativo municipal.

Conforme informações divulgadas pelo site Olhar Direto, a investigação começou após o Gaeco receber uma denúncia anônima que apontava a suposta atuação de um grupo de vereadores em práticas como corrupção passiva, extorsão, chantagem e cárcere privado. O relato também mencionava uma possível articulação para garantir a permanência de Wanderley Cerqueira na presidência da Câmara.

A denúncia indicava que os parlamentares se reuniriam em 13 de maio para consolidar apoio à candidatura do emedebista. A propriedade rural teria sido utilizada para concentrar os políticos antes da votação, realizada no dia seguinte.

Com base nas informações recebidas, os investigadores passaram a verificar a movimentação no endereço indicado. Um relatório de inteligência registrou a presença de vereadores e a circulação de pessoas pela chácara. Entre os parlamentares identificados nas fotografias estão Braz Jaciro e Miguel Júnior (Cidadania), que aparece em uma área aberta, vestindo camiseta cinza e short branco.

O material também registra veículos estacionados e pequenos grupos reunidos no terreno. A denúncia inicial mencionava ainda a possível presença de homens armados responsáveis pela vigilância do local e suspeitas de utilização de dinheiro em espécie para compra de votos. Esses elementos integram as informações que motivaram a apuração e ainda precisam ser esclarecidos pelos investigadores.

Outro ponto investigado é a possível distribuição de valores periódicos, chamados de “pacuzinho”, que, segundo a suspeita, seriam destinados a manter parlamentares em silêncio diante de possíveis irregularidades. O Gaeco também apura se teria ocorrido pagamento de dinheiro em troca de apoio político na eleição da Mesa Diretora.

As diligências alcançam ainda Rogerinho Dakar (PSDB), ex-presidente do Departamento de Água e Esgoto de Várzea Grande (DAE-VG), que retornou recentemente à Câmara; Samir Katumata (PL), suplente de vereador e secretário legislativo; e Lorineide Inhan, diretora-geral responsável pelas áreas financeira e de gestão do Legislativo.

A operação também alcança dois vereadores de Cuiabá. Ao todo, são 30 mandados de busca e apreensão domiciliar, pessoal e veicular, cumpridos em Cuiabá, Várzea Grande e Chapada dos Guimarães. Mais de 200 policiais participam da ação. O objetivo é reunir documentos e outros elementos que permitam esclarecer como funcionaria a suposta articulação e identificar a eventual participação de cada investigado.

Wanderley enfrentou Lucas do Chapéu do Sol (PL) na eleição de 14 de maio e venceu por apenas um voto de diferença, com placar de 12 a 11. A votação ocorreu na véspera do aniversário de Várzea Grande e garantiu a permanência do emedebista na presidência naquele momento.

A eleição para o biênio 2027/2028 foi posteriormente anulada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro Dias Toffoli entendeu que a escolha da Mesa Diretora havia ocorrido com antecedência excessiva. A decisão derrubou o entendimento anterior do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, que havia autorizado a votação. Um recurso apresentado pela Câmara Municipal também foi rejeitado.

O encontro dos vereadores na chácara já havia provocado críticas políticas na época. A prefeita Flávia Moretti (PL) questionou a reunião dos parlamentares antes da votação. Após a operação desta terça-feira (20), Sargento Galibert confirmou que esteve na propriedade, mas negou que tenha ocorrido pagamento para garantir votos.

Cathedra Venalis é uma expressão em latim que remete à ideia de uma cadeira ou cargo negociado. O nome faz referência à suspeita de utilização de vantagens indevidas para influenciar decisões políticas dentro do Legislativo municipal.

A força-tarefa do Gaeco reúne integrantes do Ministério Público de Mato Grosso, da Polícia Militar, da Polícia Civil, da Polícia Penal e do Sistema Socioeducativo. Com o cumprimento dos mandados, os investigadores buscam aprofundar a apuração sobre uma possível organização criminosa voltada à obtenção de vantagens indevidas e à prática de corrupção na administração pública municipal. A condição de investigado não significa comprovação de culpa, e a apuração deverá esclarecer os fatos e eventual responsabilidade individual.


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