- CUIABÁ
- QUINTA-FEIRA, 15 , OUTUBRO 2026
A secretária de Estado de Segurança Pública de Mato Grosso, Susane Tamanho, afirmou que o governo estadual está organizando, em parceria com a Prefeitura de Cuiabá, uma operação voltada à população em situação de rua na região central da Capital. A declaração foi dada durante a apresentação do balanço da Operação Integrada Via do Cobre, realizada para combater furtos, roubos e receptação de fios, cabos e materiais que contenham cobre.
“Com relação à população de rua, o governo do Estado também, em parceria com toda a rede municipal aqui, nós estamos orquestrando algumas operações para retirar a população de rua. É uma operação que a gente vai desencadear, já organizamos, nós vamos começar setorizadamente ela”, declarou a secretária ao informar que novos detalhes serão divulgados posteriormente.
A medida ocorre em meio às reclamações recorrentes de comerciantes do Centro Histórico, que relatam furtos frequentes dentro dos estabelecimentos, inclusive durante o dia. Lojistas também apontam a insegurança como um dos fatores que contribuem para a redução do movimento comercial na região. Um dos casos recentes envolve uma loja da We Pink, franquia de cosméticos da influenciadora Virginia Fonseca, na Rua Joaquim Murtinho. Imagens de segurança mostram uma mulher em situação de rua levando um body splash avaliado em aproximadamente R$ 60 após reagir de forma agressiva à abordagem de funcionárias. Segundo relatos das colaboradoras, ela voltou ao estabelecimento dias depois, causando preocupação à equipe.
Segundo Susane, a atuação das forças de segurança será mantida e reforçada na região central. Ela destacou que a Polícia Militar realiza ações de policiamento ostensivo, incluindo a Operação Centro Seguro, desencadeada no fim e no início de cada mês.
A secretária também informou que 299 alunos-soldados em formação estão sendo direcionados principalmente para a região central de Cuiabá, dentro das ações de reforço da segurança. O policiamento conta ainda com equipes de motocicletas do Batalhão de Rondas Ostensivas Tático Móvel (Raio) e da Companhia Centro. “Não só o município quanto o Estado é muito preocupado com essa questão. A gente sabe que está passando por revitalização ali no Centro, no Morro da Luz. Então, a ideia realmente é tornar o Centro de Cuiabá um local de visitação”, afirmou.
Desafio social
O anúncio da nova operação retoma um embate que marcou o início da gestão do prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL), com a população em situação de rua. Em 17 de janeiro de 2025, o prefeito afirmou que iria decretar a proibição da distribuição de marmitas nas ruas da capital, sob o argumento de que a alimentação deveria ocorrer em local adequado, com descarte correto dos restos. A intenção, porém, foi contida pelo Ministério Público de Mato Grosso: em 28 de janeiro do mesmo ano, Brunini assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que proíbe o município de interromper os serviços de segurança alimentar dessa população, a menos que comprove que restaurantes populares ou outras formas de fornecimento conseguem suprir a demanda. O acordo foi assinado pelo procurador-geral de Justiça, Deosdete Cruz Junior, e pelo promotor Henrique Schneider Neto, com anuência do Tribunal de Justiça de Mato Grosso.
O debate também ganhou espaço na Câmara Municipal. Uma proposta do vereador Ranalli virou a Lei 7.629/2026, sancionada por Brunini em 25 de agosto deste ano, que criou o programa “De Volta para Minha Terra”. O programa prevê apoio para que pessoas em situação de vulnerabilidade social retornem às cidades de origem, incluindo passagens, emissão de documentos e encaminhamento a serviços de assistência, desde que comprovem vulnerabilidade e vínculo familiar ou comunitário no destino. Segundo dados da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) citados pelo parlamentar, Cuiabá tem 1.238 pessoas em situação de rua, enquanto Mato Grosso contabiliza mais de 3 mil. A proposta foi aprovada com 17 votos favoráveis e uma abstenção.
O vereador Dilemário Alencar (União) também pautou o assunto. Em maio, ele defendeu medidas mais rígidas para o Centro Histórico, citando o modelo de Florianópolis, que usa postos em rodoviárias para oferecer transporte de volta às cidades de origem, prática que, no entanto, é investigada pelo Ministério Público de Santa Catarina. A audiência pública proposta por ele ocorreu em 3 de junho, na Câmara, e reuniu representantes da Prefeitura, Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública, OAB-MT e Governo do Estado, na primeira vez em que o tema foi debatido em uma audiência específica na história da Casa. Na ocasião, dados do Cadastro Único apontaram cerca de 1.800 pessoas em situação de rua cadastradas em Cuiabá, e os participantes defenderam ações coordenadas entre os entes federativos para enfrentar o problema.
Furtos de cobre na região central
Durante a apresentação da Operação Integrada Via do Cobre, Susane também destacou que uma parcela significativa dos furtos desse tipo de material ocorre na região central de Cuiabá. A iniciativa reúne forças de segurança do Estado e o município no enfrentamento aos crimes de furto, roubo e receptação de cabos e fios.
A operação busca combater a cadeia criminosa relacionada ao cobre, desde a retirada ilegal dos materiais até a receptação. A prática provoca prejuízos ao patrimônio público e privado e pode comprometer serviços e estruturas urbanas.
A situação se soma às queixas de comerciantes do Centro Histórico, que relatam invasões a lojas, desaparecimento de mercadorias e episódios de intimidação. Em reportagens anteriores, lojistas também apontaram problemas estruturais e a falta de segurança como fatores que prejudicam a circulação de consumidores e o funcionamento dos estabelecimentos.
Em janeiro deste ano, a Prefeitura de Cuiabá intensificou ações de fiscalização sobre a ocupação irregular de calçadas. A região também passa por iniciativas de ordenamento e revitalização.
Ao comentar as medidas previstas para o Centro, Susane reconheceu que a situação exige uma atuação articulada entre diferentes órgãos públicos. Segundo ela, as ações serão organizadas por setores e novas informações sobre a operação deverão ser divulgadas posteriormente.
“É, infelizmente, uma temática sensível, e a gente tem que ter a conjunção de esforços para resolver esse problema”, afirmou.
A secretária, contudo, não detalhou a data de início nem o cronograma completo da operação voltada à população em situação de rua. Ela ressaltou, porém, que o Estado e o município estão trabalhando conjuntamente para enfrentar os problemas identificados na região.