- CUIABÁ
- SEGUNDA-FEIRA, 6 , JULHO 2026
Mesmo em meio à dor da perda, a família do entregador Toni Marcos Pereira Souza, de 32 anos, decidiu transformar o luto em um gesto de solidariedade. Morto após ser baleado durante uma tentativa de assalto na última sexta-feira (3), em Cuiabá, Toni teve as córneas doadas. Em nota, os familiares afirmaram que a decisão representa a esperança de que outra pessoa possa voltar a enxergar.
Segundo a família, Toni havia começado a trabalhar como entregador por aplicativo há cerca de dois meses, logo após receber alta de uma longa internação hospitalar. O novo emprego representava um recomeço e a oportunidade de sustentar os dois filhos pequenos, além de seguir em busca de objetivos que cultivava havia anos.
Descrito como um homem generoso, determinado e sonhador, Toni comemorava recentemente a realização de dois desejos pessoais: conhecer o estádio do Corinthians, em São Paulo, e visitar o mar pela primeira vez. Ainda assim, continuava planejando o futuro. Entre seus maiores sonhos estavam conquistar a casa própria, ingressar no curso de Direito para se tornar delegado de polícia e levar os filhos para assistir a uma partida do Corinthians na Neo Química Arena, em Itaquera.
Recomeço após meses de internação
Antes de iniciar o trabalho como entregador, Toni passou vários meses internado no Hospital Municipal de Cuiabá (HMC), onde tratava uma doença hepática que ainda estava sob investigação.
Após receber alta, encontrou nas entregas por aplicativo uma forma de garantir o sustento da família. Conforme os parentes, ele era completamente dedicado aos filhos, com quem passava boa parte do tempo livre jogando videogame e acompanhando partidas do Corinthians.
A família também destaca a relação de proximidade que Toni mantinha com os pais e as duas irmãs. Segundo os familiares, ele costumava dizer que havia “ganhado na loteria” por ter um pai tão amoroso. Com a mãe, compartilhava uma convivência diária. Foi nos braços dela que ele morreu, após ser atingido por um disparo durante a tentativa de roubo.
Família contesta versão de reação ao assalto
De acordo com os parentes, Toni aguardava uma nova solicitação de entrega quando foi surpreendido pelos criminosos. Ele estava parado sobre a motocicleta, em frente à residência, ouvindo música por meio de um dispositivo instalado no capacete e, por isso, não percebeu a aproximação dos assaltantes.
A família rebate a informação de que ele teria reagido ao assalto.
“Embora tenham dito que ele reagiu ao assalto, a verdade é que ele estava parado na moto esperando a próxima corrida e ouvindo música. Ele havia comprado recentemente um equipamento acoplado ao capacete e não ouviu a aproximação dos criminosos”, relatou um familiar.
No momento da abordagem, o portão da residência estava aberto e um dos filhos da vítima brincava na área da casa. Os parentes acreditam que Toni tentou proteger a criança e impedir a entrada dos assaltantes.
Despedida marcada pela fé
Em nota, a família afirmou que busca forças na fé para enfrentar a perda e descartou qualquer sentimento de vingança.
“Nós, assim como ele, acreditamos na justiça de Deus. Não desejamos mal a quem nos causou essa dor, porque o que tínhamos de mais precioso já nos foi tirado e nada poderá trazê-lo de volta. Também não queremos que nenhuma outra família passe pelo sofrimento que estamos vivendo. Toni morreu como viveu: com coragem e lutando.”
Investigação
A Polícia Civil identificou como suspeitos do crime Ícaro Vitor Pinheiro Silva Trindade, de 20 anos, e um adolescente de 17 anos. A dupla é investigada por uma série de roubos registrados na região do bairro Carumbé, em Cuiabá, no mesmo dia do homicídio.
Durante o depoimento, Ícaro assumiu inicialmente ter efetuado o disparo que matou o entregador. Posteriormente, porém, alterou a versão apresentada, e o adolescente passou a afirmar que foi o autor do tiro.
Toni chegou a ser socorrido e encaminhado para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro Morada do Ouro, mas não resistiu aos ferimentos.
A Polícia Civil analisa imagens de câmeras de segurança instaladas nas proximidades do local do crime para esclarecer a dinâmica da ação e identificar quem efetuou o disparo que matou o entregador. As investigações continuam.