quarta-feira, 21 - outubro 2026 - 14:20



CATHEDRA VENALIS

Gaeco investiga 'carta de renúncia' e pagamento de mensalinho de R$ 10 mil a vereadores em VG


Allan Mesquita / Da Redação
Reprodução
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A investigação conduzida pelo Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (GAECO) no âmbito da Operação Cathedra Venalis investiga métodos de controle político e coerção sem precedentes nos bastidores do Poder Legislativo municipal em Várzea Grande. De acordo com os relatórios e depoimentos anexados aos autos, parlamentares teriam sido obrigados a assinar cartas de renúncia com datas em branco para assegurar fidelidade a um bloco político liderado pelo presidente da Câmara, Wanderley Cerqueira (MDB), na disputa da presidência.

O esquema de coação veio à tona com o aprofundamento das apurações sobre as articulações para a composição da Mesa Diretora da Câmara Municipal. Conforme detalhado nas investigações do GAECO, o episódio central do uso de cartas de renúncia ocorreu na virada do ano de 2024 para 2025, durante uma reunião de articulação política realizada em uma chácara pertencente ao vereador Miguel Júnior.

O encontro reuniu parlamentares com o propósito de consolidar o apoio em torno da chapa encabeçada pelo presidente da Casa. Contudo, para blindar o grupo contra eventuais traições ou mudanças de alinhamento político, os vereadores que declararam apoio foram submetidos a uma exigência drástica: assinar termos de renúncia ao mandato sem preenchimento de data ou motivação.

Na prática, o documento funcionava como uma espada sob a cabeça dos parlamentares. Caso qualquer membro do bloco decidisse votar de forma independente ou romper com a liderança estabelecida, a carta de renúncia, mantida sob custódia do grupo, poderia ser protocolada sumariamente na Secretaria da Câmara, resultando na perda imediata e irrecorrível do mandato eletivo.

Os relatórios técnicos e depoimentos que integram o inquérito apontam que as cartas de renúncia não eram o único instrumento de pressão utilizado para manter os parlamentares sob rédea curta. A investigação aponta um cenário de forte intimidação, que incluía o uso de gravações clandestinas e monitoramento em ambientes políticos para tolher a oposição e blindar interesses corporativos e contratuais no município.

As apurações constam de Procedimento Investigatório Criminal que tramita no Núcleo de Justiça 4.0 do Juiz das Garantias de Cuiabá. Segundo os órgãos de persecução penal, a articulação política envolvia a concessão de vantagens indevidas, como a promessa de repasses mensais em dinheiro, apelidados de “mensalinho” e estimados em R$ 10.000,00 por vereador, acompanhada da exigência de garantias abusivas de fidelidade.

Cathedra Venalis

A Operação Cathedra Venalis, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) na terça-feira (20), investiga uma suposta organização criminosa na Câmara Municipal de Várzea Grande, suspeita de negociar vantagens indevidas para garantir a reeleição do presidente do Legislativo, Wanderley Cerqueira (MDB). A ação cumpriu 30 mandados de busca e apreensão em Cuiabá, Várzea Grande e Chapada dos Guimarães, tendo como alvos 13 vereadores de Várzea Grande e dois parlamentares da Capital.

Conforme informações divulgadas sobre o inquérito, a investigação apura suspeitas de pagamento de um “mensalinho” de R$ 10 mil a vereadores, distribuição de cargos comissionados e promessa de vantagens financeiras que poderiam chegar a R$ 500 mil por parlamentar, relacionadas a possíveis articulações envolvendo o Departamento de Água e Esgoto de Várzea Grande (DAE-VG). Os investigadores também apuram relatos de cartas de renúncia assinadas em branco e gravações clandestinas que teriam sido usadas para pressionar parlamentares a manter apoio político ao grupo.

As apurações tiveram entre os pontos de partida uma denúncia sobre uma reunião de vereadores em uma chácara, na região do Distrito da Guia, às vésperas da eleição da Mesa Diretora. A votação ocorreu em maio de 2026 e terminou com a vitória de Wanderley por 12 votos a 11, mas foi posteriormente anulada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A operação busca reunir provas sobre as suspeitas de corrupção, coação, extorsão e outros possíveis crimes contra a administração pública. Os fatos ainda estão sob investigação e as suspeitas não representam, por si só, comprovação de culpa dos citados.


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