- CUIABÁ
- SÁBADO, 17 , OUTUBRO 2026
Imagine contratar uma reforma para aquele sofá da sala, combinar o preço, entregar o móvel a quem promete devolvê-lo renovado e, depois de pagar pelo serviço, descobrir que o estofado desapareceu. As mensagens deixam de ser respondidas, as justificativas se acumulam e o profissional que parecia confiável simplesmente some.
Para algumas famílias de Cuiabá, o que deveria ser uma solução para renovar os móveis da casa se transformou em prejuízo financeiro, frustração e uma longa busca por respostas. É esse o cenário revelado pela investigação da Polícia Civil na Operação Tapeçaria do Crime, que apura um esquema de golpes envolvendo falsas reformas de sofás, poltronas e cadeiras.
A investigação identificou pelo menos 21 vítimas diretas, além de dezenas de registros com relatos semelhantes. Na última quarta-feira (14), dois homens, de 45 e 27 anos, foram alvos de mandados de prisão preventiva na segunda fase da operação, coordenada pela Delegacia Especializada de Defesa do Consumidor (Decon), em Cuiabá.
O esquema, segundo a Polícia Civil, começava longe das residências das vítimas: nas redes sociais. Anúncios ofereciam reformas de estofados por valores abaixo dos praticados no mercado e com prazos curtos para a conclusão dos serviços.
A proposta parecia vantajosa. Em vez de gastar com móveis novos, o consumidor poderia recuperar aquele sofá que já fazia parte da rotina da família, renovar as poltronas da sala ou restaurar as cadeiras da casa por um preço mais acessível.
Depois do primeiro contato, os investigados iam até as residências para recolher os móveis. O pagamento era exigido antecipadamente, por Pix ou cartão de crédito.
Era nesse momento que, conforme as apurações, a relação comercial começava a tomar outro rumo. Os serviços não eram executados e, em diversos casos, os móveis também não voltavam para os donos.
Quando chegava o prazo combinado para a entrega, as vítimas procuravam os responsáveis em busca de explicações. De acordo com a investigação, as respostas envolviam supostos problemas operacionais, falta de materiais e outros obstáculos que impediriam a conclusão das reformas.
O tempo passava, os móveis não eram entregues e a preocupação aumentava.
Em seguida, segundo a Polícia Civil, alguns clientes deixavam de receber respostas. As mensagens eram ignoradas e os consumidores acabavam bloqueados, sem conseguir contato com quem havia recolhido seus pertences e recebido pelo serviço.
O que começou como uma contratação aparentemente comum se transformava em uma sequência de cobranças sem solução. Para as vítimas, restavam o prejuízo, a ausência dos móveis e a incerteza sobre a possibilidade de recuperá-los.
Móveis abandonados e famílias obrigadas a comprar outros
Um dos aspectos mais graves identificados durante a investigação envolve o destino dos estofados recolhidos.
Conforme a Polícia Civil, algumas vítimas conseguiram localizar os próprios móveis abandonados em galpões utilizados pelos investigados. Em vez de encontrar os sofás reformados, como haviam contratado, depararam-se com peças desmontadas e deterioradas.
A descoberta expõe uma dimensão do prejuízo que vai além do dinheiro pago antecipadamente. O consumidor entregava um bem que já possuía, pagava pela reforma e, em determinados casos, acabava sem condições de recuperar o próprio móvel.
Em outras situações, as famílias precisaram comprar novos estofados para dentro de casa enquanto continuavam pagando parcelas referentes a serviços que nunca foram concluídos.
O prejuízo, portanto, podia se acumular: o valor da reforma não realizada, a perda do móvel e a necessidade de gastar novamente para mobiliar a residência.
Idosos e famílias de baixa renda entre as vítimas
A investigação também identificou consumidores em situação de maior vulnerabilidade entre os prejudicados, incluindo idosos e famílias de baixa renda.
Para quem precisa controlar cada despesa doméstica, contratar uma reforma pode ser uma alternativa para evitar a compra de móveis novos. Quando o serviço não é realizado e o dinheiro não é recuperado, o impacto pode comprometer uma parcela significativa do orçamento familiar.
Além das perdas financeiras, os relatos apontam transtornos provocados pela falta dos móveis e pela dificuldade de encontrar os responsáveis.
A Polícia Civil apura ainda como os investigados teriam dificultado a própria localização. Segundo a investigação, eles mudavam frequentemente as razões sociais e os endereços comerciais, além de divulgarem informações falsas sobre sua localização nas redes sociais.
Essas mudanças, conforme os investigadores, dificultavam o acompanhamento das atividades comerciais e a localização dos responsáveis pelas reclamações.
Um dos investigados já estava preso
A segunda fase da Operação Tapeçaria do Crime resultou em dois mandados de prisão preventiva nesta quarta-feira (14). Um dos investigados, de 45 anos, já estava preso desde abril, quando foi detido na primeira fase da operação, também por suspeita de envolvimento em fraudes semelhantes. O novo mandado foi cumprido na unidade penitenciária onde ele se encontra.
As apurações são conduzidas em dois inquéritos policiais pela Delegacia Especializada de Defesa do Consumidor.
Além das prisões, a Justiça determinou que os dois investigados ficam proibidos de exercer atividades econômicas relacionadas à tapeçaria, incluindo confecção, reforma, restauração e comercialização de estofados. A restrição também impede que atuem nessas atividades por meio de terceiros.
Os suspeitos poderão responder por estelionato qualificado, crime cuja pena pode chegar a oito anos de prisão, além de multa, conforme o enquadramento legal aplicável.
A investigação continua para calcular o prejuízo total, reunir novas provas e identificar outras possíveis vítimas.