terça-feira, 7 - abril 2026 - 18:53



SEGURANÇA PÚBLICA E COMÉRCIO LOCAL

Aos 307 anos, Cuiabá enfrenta insegurança e afeta vendedores de ouro


Entre ouro e imóveis vazios, imagem expõe impacto da falta de segurança e apoio.
Entre ouro e imóveis vazios, imagem expõe impacto da falta de segurança e apoio.

Em meio às comemorações pelos 307 anos de Cuiabá, o Centro Histórico — berço da capital e um dos principais polos comerciais da cidade — também revela uma realidade preocupante para quem trabalha na região: a insegurança constante, especialmente entre joalherias e lojas de compra e venda de ouro.

Comerciantes do setor relatam medo frequente diante da ausência de segurança efetiva. Embora não haja levantamento oficial da Prefeitura de Cuiabá ou do Governo de Mato Grosso, lojistas estimam que existam entre 30 e 40 estabelecimentos que trabalham com o metal nobre apenas na área central. A concentração de ouro, no entanto, acaba atraindo criminosos e impactando diretamente a rotina desses trabalhadores.

Mesmo com uma base da Polícia Militar nas proximidades, a sensação predominante é de abandono. Segundo relatos, muitos empresários já encerraram as atividades ou deixaram a região por não se sentirem seguros.

A percepção de esvaziamento também é visível nas ruas: não é difícil encontrar imóveis com placas de venda ou aluguel no calçadão e em vias próximas. O empresário Wanderley Martins Santos mantém uma joalheria no Centro há seis anos, mas a relação da família com o ramo é mais antiga. O pai dele, de 73 anos, atua no setor há três décadas e já foi vítima de assaltos três vezes.

O caso mais recente ocorreu no dia 26 de março deste ano. De acordo com Wanderley, os criminosos se passaram por clientes para entrar no estabelecimento. “Um deles chegou com uma peça de ouro dizendo que queria vender. Quando meu pai foi verificar, ele sacou a arma e anunciou o assalto. Ao tentar se afastar, meu pai acabou sendo baleado no braço”, relatou.

O idoso foi socorrido pelo próprio filho e levado ao Hospital Municipal de Cuiabá, onde passou por cirurgia. Apesar de estar fora de perigo, ainda não conseguiu retomar as atividades por conta das dores. A bala permanece alojada no corpo devido à calcificação no osso. Após o crime, o suspeito fugiu de moto e, até o momento, não houve prisão.

No mesmo dia, outra joalheria foi alvo de criminosos na Rua Antônio João. Imagens de câmeras de segurança registraram o momento em que uma mulher armada entra no local, recolhe diversas joias e foge. O prejuízo estimado foi de R$ 25 mil. Dois dias depois, uma mulher de 26 anos e um homem de 24 foram presos, e parte dos objetos foi recuperada.

Em fevereiro, outro episódio chamou atenção: uma quadrilha armada invadiu uma joalheria na Avenida Tenente Coronel Duarte, rendeu clientes e funcionários e levou joias, celulares, dinheiro e um carro de luxo. Toda a ação foi registrada por câmeras de segurança.

Diante desse cenário, parte dos lojistas afirma que precisa investir em segurança privada para conseguir manter as atividades. Wanderley, por exemplo, gasta cerca de R$ 17 mil por ano com esse tipo de serviço. Comerciantes também relatam que o policiamento tende a ser intensificado apenas após ocorrências, diminuindo gradualmente com o passar do tempo.

Alguns trabalhadores evitam falar abertamente por medo de represálias. Há relatos de falta de atendimento em situações de emergência e até de intimidação após críticas à atuação policial. Em certos casos, comerciantes teriam sido pressionados a gravar vídeos ao lado de policiais afirmando que a situação estava sob controle.

Procurada, a Polícia Militar não se manifestou até a publicação desta reportagem.

Além da insegurança, outro fator agrava o cenário: a ausência de organização do setor. Não há dados atualizados sobre o número de empresas que atuam com ouro na capital, nem uma entidade representativa ativa. Registros da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico indicam que, em 2007, existia a Associação dos Joalheiros de Mato Grosso (Ajomat), atualmente inativa.

A Junta Comercial do Estado de Mato Grosso informou que não existe uma Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) específica para o comércio de ouro. Na prática, empresas do setor são registradas em categorias variadas, o que dificulta a organização e a produção de dados precisos.

Já a Câmara de Dirigentes Lojistas de Cuiabá afirmou não possuir informações específicas sobre o segmento, por atuar principalmente no varejo tradicional.

Para comerciantes, essa falta de estrutura coletiva impacta diretamente o desempenho do setor. Sem integração em campanhas promocionais e estratégias específicas de divulgação, muitas lojas acabam ficando à margem do mercado.

A comerciante Leidimara Abrel, que atua há 16 anos com ouro na região central, afirma que a ausência de representatividade prejudica o segmento. “Eles trazem ações para outras lojas e acabam esquecendo da gente. Muita gente nem sabe que estamos aqui e prefere ir para shoppings, até por medo da insegurança”, disse.

Apesar do destaque para as joalherias, lojistas afirmam que a violência atinge diversos segmentos no Centro Histórico, incluindo lojas de roupas, óticas e estabelecimentos de aviamentos.


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